O mês mais curto do ano, com seus 28 dias ligeiros, parece concentrar no Brasil uma intensidade que não cabe no calendário. Fevereiro é sinônimo de calor, de ruas cheias, de batuques que atravessam madrugadas e, sobretudo, de Carnaval. Em 2026, ao chegar ao seu último dia, a festa deixou mais do que glitter espalhado pelo asfalto. Ela deixou perguntas ecoando entre trios elétricos, sambódromos e bloquinhos.
A Foliã que vos escreve é nascida em fevereiro, mês que carrega no DNA a alegria e a irreverência, e eu não poderia deixar de comentar o que vi e senti. O Carnaval segue sendo uma das maiores expressões da cultura popular brasileira, mas também se tornou um dos maiores palcos de sua mercantilização. Entre abadás caríssimos, camarotes exclusivos e os chamados “cercadinhos”, a pergunta que não quer calar continua a insistir, afinal, a quem pertence a festa?
Em Salvador, a cena foi emblemática. Armandinho, herdeiro da tradição de Dodô e Osmar, símbolo da democratização da música nas ruas, precisou se desdobrar para garantir espaço fora da lógica dos cercamentos que transformam o espaço público em área VIP. Como se não bastasse, a família ainda enfrentou uma batalha pessoal, a necessidade de organizar uma vaquinha para custear o tratamento de Aroldo Macedo, acometido por uma doença rara. A mobilização popular, felizmente, mostrou que a solidariedade ainda pulsa forte no coração da festa.
No eixo Rio–São Paulo, o Carnaval também revela suas tensões e reinvenções. Em Rio de Janeiro e São Paulo, os bloquinhos de rua voltaram a crescer nos últimos anos, reafirmando a potência do encontro espontâneo, gratuito e diverso. São manifestações que escapam, em parte, da lógica empresarial, ainda que também sofrem pressões de patrocínios, regulamentações e disputas por espaço urbano. O asfalto vira palco, o povo vira protagonista, e a cidade se reconhece em sua pluralidade.
Enquanto isso, em Niterói, uma escola de samba decidiu homenagear Luiz Inácio Lula da Silva, reacendendo o debate sobre os limites, ou quem sabe a inexistência deles, entre cultura, política e Carnaval. A avenida tornou-se arena simbólica, onde memórias, disputas ideológicas e narrativas históricas se entrelaçam ao som da bateria. Para alguns, foi ousadia, para outros, provocação. Mas, acima de tudo, foi expressão. E o Carnaval sempre a expressão do cotidiano e do tempo presente. O que se observa, portanto, é um Carnaval que oscila entre resistência e mercado, entre tradição e espetáculo, entre crítica social e entretenimento massivo. A festa continua sendo do povo, mas disputa, ano após ano, o direito de permanecer pública, acessível e plural.
Ao fim do Carnaval de 2026, restam confetes e reflexões. Se fevereiro é o mês mais curto, sua capacidade de revelar as contradições do Brasil é imensa. Talvez seja essa a grande força da festa. E enquanto o país dança, também pensa. E entre um passo de frevo e um refrão de samba, seguimos perguntando que cultura queremos celebrar e para quem.






