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quarta-feira, março 28, 2007

Frevo ou samba?


"Frevo ou samba? Swingue bamba... mandinga de pagé"


As músicas que sempre embalaram o carnaval dos brasileiros de norte a sul do país estão agora registradas em dois discos duplos lançados pelo selo Biscoito Fino. São eles: “Sassaricando e o Rio inventou a marchinha e 100 anos do Frevo é de perder o sapato”.
O primeiro a ser lançado pelo selo, no finalzinho do mês de janeiro deste ano, foi “Sassaricando e o Rio Inventou a Marchinha” que reuniu um elenco artístico e profissional de primeira linha para contar a história cronológica das marchinhas de carnaval. As músicas são registro musical do Rio de Janeiro das décadas de 20, 30, 40 e 50 onde os compositores da época faziam uma espécie de crônica da cidade e do país.
Por muito tempo a cidade do Rio de Janeiro e os cariocas haviam esquecido a sua cultura popular que agora resgatam com maestria neste trabalho muito bem pensado. Os idealizadores da edição foram os pesquisadores em música popular brasileira Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral que assinam o texto de abertura do encarte do disco.
Para interpretar as canções foram convidados Eduardo Dusek, Soraya Ravenle, Pedro Paulo Malta, Alfredo Del-Penho, Juliana Diniz e Sabrina Korgut. Foram tantas músicas encontradas pelos pesquisadores que elas foram divididas no primeiro disco em blocos (Comportamento, Entre quatro paredes, De onde vem o dinheiro?, Cidade que me seduz). Cada bloco com seqüência de três a seis músicas juntas.
Nos dois discos estão canções de Lamartine Babo (Ai, hein?, Infelizmente, Cantores do rádio, Linda Morena), Ary Barroso (A casta Suzana), Noel Rosa (Você, por exemplo, prato fundo), Mário Lago (Aurora), Max Nunes (Bandeira branca), João de Barro (Yes, nós temos banana, Cadë Mimi, Touradas de Madri, Chiquita Bacana, Garota de St. Tropez, Linda loirinha), Germano Augusto (A mulher do padeiro), Roberto Martins (Pedreiro Waldemar), Mirabeu (Turma do funil, Cachaça), Zé da Zilda (Saca-rola) e tantas outras.
Neste elenco de antigas marchinhas está presente o nosso querido Livardo Alves com sua “Marchinha da Cueca”, composta em parceira com Carlos Mendes e Sardinha (faixa 8) e Meu Brotinho de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
Para compor este imenso trabalho os idealizadores escutaram mais de mil músicas. “Haverá certamente a ausência de uma ou outra marchinha neste disco”, comentou Sérgio Cabral. E de fato existe uma lacuna. Faltaram canções símbolos do carnaval, a exemplo de “A Jardineira”, “Malmequer”, “Me dá um dinheiro ai”.
Para compensar a ausência o selo Biscoito Fino lançou, dia 9 de fevereiro (data em que pela primeira vez a palavra foi publicada na imprensa pernambucana) o CD duplo “100 anos do frevo é de perder o sapato”. Enquanto o disco das marchinhas se guia pela sociologia do cotidiano carioca do século passado, o disco do frevo pernambucano se vale da história e das richas entre os puristas admiradores do frevo instrumental e dos modernistas com seus frevos-canção com sabor pop e temática contemporânea, para contar, em forma de música, como a música aconteceu e se tornou tão popular. E de fato é impossível passar despercebido por elas sem ao menos cantarolar. Mas, o disco deixa no ar uma dúvida: O frevo é uma dança ou uma música?
Valdemar Oliveira, no livro “Espetáculos Populares de Pernambuco” (Ed. Bagaço, 1999), já dizia ser impossível distinguir bem: se o frevo, que é a música, trouxe o passo ou se o passo, que é a dança, trouxe o frevo. “As duas coisas foram se inspirando uma na outra e completaram-se”, dizia ele.
Dança ou música o fato que o “blockboster”, para usar uma palavra moderna, promete ser o maior sucesso deste ano no gênero. É no passo dessa dança que o CD duplo traz uma primeira parte inteiramente instrumental (para agradar os puristas) com frevos como Três da Tarde (Lídio Macacão), Aninha no Frevo (Clovis Pereira), Duas Épocas (Edson Rodrigues), Último Dia (Levino Pereira), Luzia no Frevo (Antônio Sapateiro), Mordido (Alcides Leão), Gostosão (Nelson Ferreira), Cabelo de Fogo (Nunes).
Uma das músicas que destacaria é execução primorosa da peça instrumental “Fantasia Carnavalesca” de Clovis Pereira, baseado em Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista, executada pela Orquestra Sinfônica de Pernambuco (OSPE), sob a regência do maestro Osman Giuseppe Gioia, gravada ao vivo numa bela apresentação em 7 de novembro de 2006, no Teatro de Santa Isabel, em Recife.
O segundo disco vozes de artistas conhecidos da música popular contemporânea brasileira são a tônica dos frevos. No elenco de estrelas estão: Gilberto Gil, Maria Bethânia, Lenine, Maria Rita, Alceu Valença, Vanessa da Mata, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Luiz Melodia, Edu Lobo, Silvério Pessoa, Geraldo Maia, Nena Queiroga, Claudionor Germano, Antônio Nóbrega, Lígia Miranda, Nena Queiroga, Rosana Simpson e Vanessa Oliveira.
O jornalista e crítico de música paraibano, radicado pernambucano, José Teles, que assina o texto do encarte, diz que o frevo evoluiu e cita a “Spokfrevo Orquestra”, conduzida pelo maestro Inaldo Cavalcanti, mais conhecido por Spok que tem esse nome devido às orelhas de lóbulos pontudos como o do personagem doutor Spok do seriado da televisão. José Teles, autor do livro “Do Frevo ao Manguebeat” (Ed. 34), se refere ao maestro Spok como a nova revelação do frevo pernambucano. “Ele chegou como uma nova concepção de arranjos e orquestração, tocando frevo para ser também ouvido, não apenas dançado”, avalia o jornalista. E Spok é presença marcante neste disco. Em boa parte das canções o nome dele é citado, não apenas tocando seu sax alto, mas compondo arranjos e com sua SpokFrevo Orquestra.
O CD duplo é uma mistura das três categorias de frevo claramente identificáveis: o frevo-de-rua, a marcha de bloco e o frevo-canção. E nesse “Frever” que se misturam os ritmos que o frevo tem atravessado fronteiras sendo conhecido mundialmente como uma música alegre e vibrante, que encanta e empolga. Para conhece-lo, não é suficiente apenas olhar a multidão passar, é preciso deixar a música fluir por todo corpo. O frevo é isto: um convite ao prazer, à diversão e à alegria.

Adriana Crisanto

Jornalista



Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte, em fevereiro de 2007.

OBS: Só agora lembrei de postar....rssss... desculpem...

Canção em forma de fogo


Como um fogo que queima sem precisar de auxílio, o jornalista, radialista e poeta, Ricardo Anísio, lança hoje, a partir das 20h, no Parahyba Café (confluências das avenidas Epitácio Pessoa com Juarez Távora, em Tambiá, seu mais novo livro de poesias intitulado “Canção do Fogo” (Editora Bagaço, 120 págs). O lançamento será em forma de recital e contará com a presença do poeta popular Jessier Quirino, Marco Di Aurélio e Oliveira de Panelas.
Esta é a quarta publicação do autor. O livro foi escrito depois do “Canção do Caos”, outro livro de sua autoria que deverá sair em novembro deste ano. “Ricardo Anísio é o um exemplo de poeta possesso”, referiu-se Chico Viana que escreve o prefácio da obra que recebe ilustrações de Clovis Júnior.
O livro é um sacramento de comunhão solitária de Ricardo Anísio como a poesia que arde como fogo aceso em seu peito apaixonado. Solitária porque a chama crepita e despertam sonhos poéticos característicos do autor. Sonhos solitários que ele comunga com seus amigos.
O artista plástico e escritor W.J.Solha escreve o prefácio da obra em forma de ensaio. “É impossível ler esses poemas sem sentir vontade de lhe fazer alterações, do mesmo modo como tenho vontade de lhe fazer alterações, do mesmo modo tenho vontade de fazer alterações em versos de Affonso Romano de Sant`Anna e de Drummond”, escreveu Solha autor dos livros “Trigal com Corvos, A Canga e História Universal da Angústia.
Para falar um pouco sobre esse novo momento de sua trajetória conversei com essa figura polêmica que me salvou e colocou-me em contato com os meandros do jornalismo cultural. Nesta entrevista ele fala um pouco sobre o gosto pela poesia, suas influências, crítica musical, poesia e literatura paraibana. Leia:

Como surgiu o gosto pela poesia e a necessidade de tê-las publicadas em livro?
A poesia entrou na minha vida primeiro pela voz da minha mãe, que sempre achou mais importante que tivéssemos cultura do que um diploma. Ela lia poemas de Adalgisa Néri para mim, do livro Ocasos de Sangue, e eu ficava fascinado. Mas foi somente no início da década de 80 que eu resolvi publicar meus rabiscos poéticos no livro Em Cada Canto Um Verso. Outro entrada da poesia deu-se através das canções de Bob Dylan, de Chico Buarque, de Lou Reed e Jim Morrison, que me fascinaram.

Quais tuas maiores influências?

Meus poetas preferidos são Garcia Lorca, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, mas sinto que há uma forte influência também dos versos de Augusto dos Anjos e da poetisa portuguesa Florbela Espanca. Na verdade eu raramente não gosto de algum poeta; só abomino mesmo a poesia concreta, os irmãos Campos e suas invenções inférteis.

Mesmo você sendo duramente criticado por seus livros de poesia um de seus textos foram indicados num processo seletivo de vestibular em Pernambuco, não foi isso? Qual é a sensação?
Na verdade não foram meus poemas que chegaram ao vestibular em Recife, mas sim um ensaio crítico que escrevi sobre a obra do compositor Maciel Melo, que considero da mesma estatura dos mestres Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O texto foi tema geral da prova de Língua Portuguesa da PUC-PE. Antes o meu livro MPB De A a Z havia sido tema da prova de português aqui em João Pessoa, no Unipê. Minha poesia é bem recebida pelo público e pela crítica pernambucanos, mas ainda distante do nicho acadêmico.

É mais fácil escrever poesias ou fazer crítica de música?
Se fosse fácil todo mundo era, como diz o poeta. Acho que ambos são difíceis, mas quando temos por ofício do cotidiano elas se tornam menos complicadas. Os poemas me dão mais prazer. Diria, parafraseando Rita Lee e Jabor que poesia é divina e a crítica musical é animal (risos). Para mim ambas são fáceis no sentido de que ambas me dão prazer. Mas a poesia requer um burilamento especial, às vezes levo uma semana trabalhando na linguagem de um poema, e às vezes ainda não me satisfaz o resultado. É mais fácil escrever crítica musical mesmo!

Como poeta é mais difícil de ser compensado por aquilo que escreve?
Sim, é. A minha poesia é repleta de metáforas e de palavras mais rebuscadas que, na comunicação via jornalismo, eu evito para que os leitores me compreendam sem a ajuda de dicionário ou do baú da memória e do conhecimento. No poema eu até acho que ele tem essa função didática: o leitor vê uma palavra que não conhece e, para entender o verso, consulta o dicionário e fica com o vocabulário enriquecido. Eu aprendi boa parte do pouco que sei de português lendo Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Érico Veríssimo. A poesia requer rebuscamento infinitamente maior.

O que mais te intriga na literatura e na poesia paraibana atualmente?
Na arte as coisas nunca me intrigam, mas me instigam. A literatura de W J Solha, por exemplo em História Oficial da Angústia, me instiga. Os poemas de Sérgio de Castro Pinto e a música de Escurinho, me instigam. Me instiga a beleza inocente da pintura de Clóvis Júnior e os desenhos fantásticos de Flávio Tavares. Me instigam demais os contos de Marília Arnaud e os romances de Mercedes Cavancanti. Me instiga o romance de Aldo Lopes, o cinema de Marcus Vilar e o teatro de Tarcísio Pereira. Enfim, a arte original e rica me instiga. O que me intriga é aquilo que eu não entendo, como exemplo a tal arte conceitual, as instalações.

O sucesso do seu trabalho “MPB de A a Z” de certa forma contribuiu para que a editora Bagaço apostasse nesta publicação?
Não. Decididamente não. Na verdade eles nem conheciam meu livro sobre música. O que aconteceu é que fui ‘apadrinhado’ por escritores como Luiz Berto, Paulo Carvalho, Joselito Nunes e pela escritora e professora de Literatura Brasileira, Haidée Camelo Fonseca. Eles e mais os músicos pernambucanos se impressionaram com os meus poemas publicados no jornal eletrônico Jornal da Besta, e degustaram meus poemas com sabor diferente do que estavam acostumados a ler.

Qual música e qual poema você daria tudo para ter feito?
A música seria Hard Rain’s a Gonna Fall, de Bob Dylan, e o poema seria Fumo, de Florbela Espanca. Não sei se exatamente por questões estéticas ou de qualidade, mas talvez porque me tocaram de forma definitiva. A canção de Dylan por exemplo, é um dos poemas mais belos e instigantes que já li-ouvi. É um diálogo metafórico entre uma mãe e um filho que prevê a Bomba Atômica antes dela ser covardemente criada e usada.

Muitos jovens jornalistas desejam ingressar no jornalismo de cultura, fazer crítica de música. Que conselho você daria para os aspirantes a críticos?
Que antes de mais nada leiam tudo quanto puderem. Que ouçam música diariamente como eu faço, que vejam filmes incessantemente, que freqüentem o teatro e que fiquem atento a linguagem plástica dos artistas contemporâneos e dos clássicos. Depois disso, que eles se preparem para separar o coração da razão. Há coisas que eu ouço em casa, mas que não elogiaria ao escrever. Também já escrevi mal sobe obras de amigos. O crítico só será honesto quando, ao escrever, colocar o coração fora do peito. A isenção e a certeza de ter feito uma avaliação isenta é que fazem o crítico ser respeitado, mesmo que ele cometa erros, por ser humano.



Adriana Crisanto

Jornalista



Foto: Divulgação do escritor

Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O Norte no dia 28 de março (quarta-feira).

"O teatro é a arte da crise"


Após a ameaça de fechamento da casa de espetáculos Ednaldo do Egypto o “teatro” passou a ser o principal assunto nas conversas de quem entende e quem não entende também. O caminho não é dos mais simples para quem se aventurou ou tenta sobreviver do teatro. A falta de espaço para atuar, baixos salários, poucos espetáculos, preço das pautas impraticáveis para produção local, casas de teatro adequadas, a competitividade entre os companheiros são alguns dos fatores que fazem com que muita gente boa se perca nesta dura caminhada. Sem falar na ausência de uma política cultural que não seja discriminatória.
Há muito se fala sobre "crise dos teatros", e esquece-se freqüentemente que a crise, qualquer crise, é sempre um ponto de ruptura de uma falsa estabilidade. Crise pressupõe que se vai operar qualquer modificação no status quo. Crise é, portanto, fonte de movimento e nunca de estagnação. Claro que no teatro, como em qualquer situação da vida, há a posição passiva e a ativa de seus representantes, ou seja, há os que reagem e ensaiam soluções, e há os que aceitam. Prudência e bom senso têm conduzido algumas pessoas das áreas da cultura, como no teatro, a muitos becos sem saída.
Para falar sobre todo os assuntos relevantes dessa crise que passa o teatro paraibano convidamos um especialista no assunto, o único doutor em teatro do Estado, o professor do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal da Paraíba (DAC/UFPB), Paulo Vieira. Nesta entrevista o dramaturgo fala sobre a crise no teatro, faz um diagnóstico sobre os principais teatros da Capital e comenta sobre outros assuntos. Leia:


Quantas vezes o senhor ouviu a afirmação de que o teatro está em crise?

Risos. Desde que comecei a fazer teatro. Teve um momento que chegava a dizer que o teatro a arte da crise. Quando eu comecei a fazer teatro existia a Confenaca e a Federação Paraibana de Teatro Amador, em nível nacional, que organização os movimentos amadorísticas do teatro. A Confenaca desapareceu, mas hoje acho que existe ainda a Federação sob o comando de Balula, mas sem a mesmo poder de ação que tinha quando eu comecei a fazer teatro. Tempos depois apareceu o Sindicato de Artistas e Técnicos de Espetáculo. O que aconteceu foi que o sindicato foi criado a partir de uma ação de um grupo muito pequeno com pouca representatividade na classe teatral. O primeiro diretor do sindicato começou a exigir que as produções tivessem compromissos sociais iguais ao que uma empresa normal tem de manter com seus empregados. Às vezes você estava com o espetáculo preparado para entrar no palco e chegava o sindicato mandando parar o espetáculo.

O que está acontecendo com o teatro paraibano?

O que está acontecendo duas coisas. Um problema de políticas públicas, que não é um problema exclusivo da Paraíba. As leis de incentivo solucionam uma parte do problema quando elas permitem a produção do espetáculo, mas a demanda é maior do que a oferta. Há muito mais espetáculos para serem feitos do que dinheiro para produção. E isso as leis de incentivo não conseguem cobrir. Até porque uma lei de incentivo não discutida no teatro. Ela é abrangente. Por exemplo, o FIC, é uma lei que abarca desde a recuperação do patrimônio histórico até a produção de filmes. São duas pontas bastante caras na produção cultural. O teatro tanto pode ser feito com muito como pode ser feito com pouco dinheiro, depende do projeto. Na outra ponta tem a organização do mercado. Talvez essa ponta precisasse de uma discussão interna em nível profissional.

Então, como fazer para manter um espetáculo em cartaz?

É difícil manter um espetáculo muito tempo em cartaz aqui, pois esbarra numa série de dificuldades. Os espetáculos produzidos em João Pessoa preferencialmente se apresentam no Teatro Santa Roza. É tanto que a pauta do teatro vive lotada o ano inteiro. Não só com os espetáculos daqui como os de fora.

E os outros teatros da cidade por que não são ocupados?

Ai você tem uma série de problemas. Por exemplo, o teatro da Fiep, um teatro regular, tem uma boa estrutura de cadeiras, de platéia, mas o palco não é tão bom, mesmo assim ainda dá para fazer espetáculos de qualquer forma, mas por outro lado tem um preço alto da pauta para a produção local. Teatro Ednaldo do Egypto tem uma pauta barata, mas em compensação tem uma platéia pequena, que para determinados espetáculos, como os de Edílson Alves, por exemplo, não comporta o público que ele tem. Tem ainda os problemas de infraestrutura. O Teatro Paulo Pontes tem problemas de infraestrutura. O próprio Santa Roza precisa fechar as portas para reparar sua estrutura sempre. E é a jóia da coroa no meu ver. Na verdade, talvez o que precise é que os profissionais de teatro sentem frente a frente para discutir os problemas do teatro e não apenas os problemas da cultura, que muito mais abrangente. Isso fica com as secretarias de cultura, com o Ministério da Cultura.

Que outros problemas o senhor apontaria?

Os problemas do teatro têm ser discutidos por gente de teatro. Tentar encontrar o caminho para atuação profissional. Existe ainda uma outra ponta que se chama o mercado publicitário. As produtoras de propaganda da Paraíba quando precisam de ator manda buscar no Recife quando aqui temos ótimos atores de teatro. Por que eles se prontificam a pagar mais ao ator do Recife e a não pagar às vezes nada ou muito pouco ao ator local? Talvez seja a carência de uma interferência nossa enquanto profissionais de teatro nesse segmento. Talvez a gente precise chegar perto deles e mostrar que temos profissionais de qualidade. As perspectivas são difíceis, mas podem ser dirimidas sem nós deixarmos que o poder público resolva tudo. Resolver por nós mesmos determinados problemas.

O que a classe artística tem feito para reverter esse quadro?

Há quatro anos atrás nós criamos um fórum de teatro pela internet muito intenso, que ainda está lá vivo, contra a falta de uma política cultural. Esse movimento foi para as ruas, entregamos documentos às autoridades. O resultado disso foi: quando o novo governo entrou, Cida Lobo assumiu a subsecretaria de cultura e graças ao trabalho das duas secretarias podemos ter aquilo que reclamávamos no governo anterior, que era a falta de uma política cultural. Tivemos uma política cultural. Foi criado o FIC, que efetivamente funciona, mas em relação ao teatro especificamente, talvez nós tenhamos nos acomodado à situação nova. Começamos a imaginar que o FIC fosse a solução dos nossos problemas, quando na verdade não é. Ele é um apoio na produção.

E como o senhor avalia às leis de incentivo a cultura?

Esse é um problema muito sério. Porque agora mesmo na virada do ano, a Lei Rouanet, do governo federal, era especificamente uma lei de cultura. Hoje ela é uma lei de incentivo a cultura e esporte. O esporte tem um apelo popular muito maior, que bem ou mal, tem muito mais facilidade para se conseguir financiamento junto as grandes empresas divide hoje a mesma migalha da cultura. Só que a migalha da cultura a tendência é de que o dinheiro migre para o esporte.

Já aconteceu algum caso, aqui na Paraíba, em que o dinheiro de uma empresa que era destinada à cultura foi para o esporte?

Eu tive uma experiência em relação a essa migração com um projeto que venho tentando recurso. Cheguei numa grande rede de lojas daqui para tentar captar recursos e soube que o dinheiro que era para ter sido investido em cultura estava sendo revertido para um time de futebol na Bahia. Um grande empresário que tem dinheiro para investir na cultura não fazer isso, porque o apelo de público é muito menor do que um time de futebol.

Fale-se muito que a internet, os shoppings, as TV´s pagas, os cinemas afastaram o público do teatro, mas o que o teatro tem feito para substituir isso?

O teatro é uma arte muito antiga. Não sei se ela compete com outros meios de comunicação. Eu tenho impressão não é um problema maior. Acho que é muito mais profundo e séria na relação do teatro com o público que é a educação ou a não educação para o teatro. Tenho a impressão de que se por um lado tem os modernos veículos que podem potencialmente roubar o público do teatro. Eu acho que isso é uma meia verdade. Porque a verdade absoluta é a falta educação para população brasileira que faz com que ela sequer tenha o trabalho de pelo menos conhecer a beleza que é o prédio do teatro Santa Roza, por exemplo. Ter a curiosidade de entrar e conhecer o prédio. Muitos passam ignorando. O público do teatro existe. Ele pode chegar a qualquer lugar. Diversas vezes eu vi atores fazendo intervenções, espetáculos, performances, dentro dos shoppings. O leque em que um ator pode atuar é muito grande.



Adriana Crisanto

Jornalista



Foto: Divulgação

*Entrevista publicada no caderno Show do Jornal O Norte, terça-feira, dia 27 de março. Dia Internacional do Teatro e do Circo.

sexta-feira, março 23, 2007

Jessier Quirino, um xilopoeta arretado!


“Arquiteto por profissão, poeta por vocação e matuto por convicção” é assim que costuma declamar para as pessoas o poeta Jessier Quirino que realiza show “Bandeira Nordestina” nesta quarta-feira (14 de março), a partir das 20h00, no Teatro Paulo Pontes do Espaço Cultural José Lins do Rego, em Tambauzinho. O show é também comemorativo ao Dia Nacional da Poesia. Os ingressos para a apresentação estão sendo vendidos na bilheteria do teatro ao preço de R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (estudante).
Jessier Quirino é natural de Campina Grande, município localizado a cerca de 118 quilômetros da Capital João Pessoa, mas reside no município de Itabaiana, mais perto de João Pessoa, cerca de 80 quilômetros. Ele é um recordista em publicações literárias que tem como essência à expressão oral e linguagem nordestina, ou como costuma denominar os poetas, a poesia matuta.
Poeta, declamador, tocador, trovador, escritor, músico. Ele tem tantos adjetivos, funções e identidades que daria até para se fazer uma rima. A primeira incursão editorial de Jessier foi Paisagem de Interior (Bagaço, 158 págs.1996), ilustrado por ele com orelha escrita por Paulo Caldas. Desde então não parou mais de escrever e ser convidado para ministrar palestras em convenções, teatros e outras exibições públicas. Seguindo a mesma linha publicou também o livro de poesia Agruras da Lata D'Água (Bagaço, 166 págs. 1998), com prefácio escrito por Bráulio Tavares. Na literatura infantil publicou Chapéu Mau e Lobinho Vermelho (1998), A Muidinha (infantil) e ainda A Folha de Boldo - Notícia de Cachaceiro (esgotado), um livro encomendado pela empresa de aguardente Pitu que reuniu uma série de piadas sobre cachaceiro.
Lançou, ainda, no ano de 2001, Prosa Morena, um livro que acompanha um CD com declamações do autor. O livro contribuiu mais ainda para a linguagem e estética de sua obra. Jessier segue a tradição da poesia matuta, que teve início com poetas populares como Cornélio Pires e Catulo da Paixão Cearense. Tem ainda editado o livro “Política de Pé de Muro – O Comitê do Povão”, é um bem humorado comitê de legendas e imagens composto por 195 fotografias de pichações políticas exóticas e gargalhativas. No ano passado lançou “Bandeira Nordestina”, que leva o mesmo título do show, onde faz um verdadeiro mergulho na cultura nordestina. Para falar sobre essas e outras coisas da poesia matuta segue uma entrevista com esse arquiteto das palavras. Leia:

O dia nacional da poesia, não por acaso, coincide com a comemoração do nascimento do escritor baiano Castro Alves. Que análise você faz da poesia neste dia? Os poetas têm o que comemorar?
Há quem diga que a poesia é o laboratório da palavra. A poesia acabada é a palavra confeitada, polida, lapidada - no meu caso - lubrificada com óleo de risada e almofadada com penas de sobrecú de pavão; tudo isto, como forma de levar emoção às pessoas. Essa emoção, na realidade, é que precisa ser comemorada, não só no seu Dia Nacional, mas no bora-bora da vida diária.
Quanto aos poetas, têm sim o que comemorar; são discípulos de Castro Alves e, com a arma pontariosa da palavra, só ferem as pessoas a golpes de entusiasmo. Temos do ponto de vista didático, uma visão do poeta Castro Alves, em posição declamatória, como era do seu feitio, e usual no seu tempo. Por coincidência, faço uma poesia que pede voz e gestos largos, operísticos. Neste sentido, apesar de fazer uma poesia garranchenta, guardo um pouco dessa postura declamatória. É nessa relação de palco e platéia que tenho vivenciado intensamente essa emoção. Torço para que seja nossa cicerone no dia a dia.

O que falta a poesia popular para ela ser mais acessível do que é?
Talvez a chave de acesso esteja na sala de aula, como matéria obrigatória. A oralidade da rapaziada, o rádio e a própria internet cuidariam de espalhar o boato. Em outros outroras, poetas como Augusto dos Anjos, Manoel Bandeira, entre outros, que, de tão cantados, até são considerados poetas populares, usavam o jornal e o panfleto como forma de divulgar suas obras. O próprio cordel foi, e ainda é, um grande veículo de difusão. Hoje, esse papel é desempenhado, na velocidade de Heródes pra Pilátos e em escala mundial pelo pombo-correio da internet. Caso as escolas adotassem como matéria obrigatória, a fonte de pesquisa seriam: cordéis, livros, cds, panfletos e esse folheto eletrônico, ferramenta indispensável nos dias de hoje.

No seu livro, “Bandeira Nordestina”, que não tive acesso ainda, há uma alusão à invenção da xilolinguagem. Em que sentido e de que maneira a xilogravura se situa na sua poesia?
Na realidade, essa expressão foi usada pelo escritor Gilberto Melo, que fez a apresentação do livro Bandeira Nordestina. Em determinado ponto, ele compara minha poesia à invenção de xilolinguagem. Refere-se que, de tão artesanal, seria como uma xilogravura; uma arte rústica de resultado sensível, capaz de retratar a riqueza cultural nordestina, sem perder o traço fundamental da simplicidade do seu povo. De fato, tenho muito zelo por essas miudezas. Retratar isto, de forma amanteigada foi à fórmula que descobri pra emocionar as pessoas.

Você participou das gravações da microssérie A Pedra do Reino. Como foi ter participado desta gravação?
Apesar de sempre imprimir uma boa dose de teatralidade nos meus espetáculos, nunca fiz teatro ou cinema propriamente dito. Na realidade entrei meio assustado feito papagaio que sobra do frechá, mas logo foi me familiarizando com o processo. Foram quatro meses de laboratórios, ensaios e gravações, amoitado no Cariri paraibano. O grande diferencial: Um elenco genuinamente nordestino e mestres de altura e robustura, mais jequitibá do território nacioná. Foi tarefa cumprida feito rabo de pavoa, mas, remédio de grande valimento. Volto aos palcos com esse aprendizado. Em formato de ator, fiz o fotógrafo e poeta Euclydes Villar, que acompanha o protagonista – Quaderna – em pelo menos uma, das inúmeras aventuras – a Caçada Aventurosa. Minha fala é pequena, feito escada de tirar maxixe, mas, tanto na caçada, como ao longo da microssérie, foi não foi, estou lá estampando minha quirinidade, ou minha euclydesdade, como queira. No decorrer das filmagens, findei fazendo outros personagens: um fanático religioso de túnica e enrolado numa rede e um padre com batina e tudo. Este último, já sem bigode e sem barba.

Você tem algumas publicações para criança. Como está essa produção para o público infantil? Parou?
Minha incursão literária infantil se resume a: “Chapéu Mau e Lobinho Vermelho” e “Miudinha”, são histórias alegres feito zoológico sem dragão. Foi não foi, estou sendo solicitado para fazer oficinas em escolas e colégios, principalmente em Recife e Natal, onde os livros são adotados. Nessas ocasiões, os gurizinhos soltam porções de: queremos mais. Ando com umas idéias na marmita dos pensamentos, e nesses dias sai coisa nova.

Quais são os planos para 2007? Mais livros, mais shows, mais eventos? Você não pensa em gravar um DVD para encartá-lo junto aos livros como já faz com os CD´s?
Os espetáculos e os eventos continuam. A feitura dos livros é mais lenta; é feita com recuos e volteios, bem ao sabor da ventania. Temos recebido muita cobrança de um Quirino falante em imagem buliçosa de DVD. Vamos fazer sim, mas ainda estamos arrumando as idéias para ter umas cenas campeiras e descritivas no andamento da palavra declamada, e isso requer mais produção.


Adriana Crisanto



Fotos: Divulgação do artista

Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte, no dia do lançamento.

sexta-feira, março 16, 2007

"A Paraíba é terra de letras. A poesia está por toda parte"


Padre Fábio de Melo faz show para católicos em João Pessoa neste sábado
Um dos shows de música católica mais esperados do ano acontece hoje em João Pessoa, no Esporte Clube Cabo Branco, em Miramar, a partir das 20h. Trata-se do show do Padre Fábio de Melo, considerado atualmente como um dos mais centrados padres da nova igreja católica. O ingresso, a preço popular, custa R$ 7,00 e pode ser encontrado para compra nas livrarias católicas da Consolação, Paulinas e na Carmem Steffans (Shopping Manaíra).
Fábio de Melo é natural de Formiga, interior do Estado de Minas Gerais. Herdou do pai o amor pela música. Os sons e tons sempre embalavam suas brincadeiras de crianças. Ele é uma prova de que compondo ou cantando, encontra um jeito construtivo de empregar seus talentos artísticos. Antes de entrar para o seminário, Fábio de Melo já gostava de usar sua bela voz grave. Desde cedo mostrou sua inclinação para o mundo das letras, tendo inclusive recebido um prêmio em um concurso de literatura no Rio de Janeiro; mas voluntariamente, por suas próprias razões, renunciou um contrato com a editora que estava patrocinando o concurso.
É membro da congregação do Sagrado Coração de Jesus, e faz questão sempre de ressaltar que tudo que escreve e faz é naturalmente evangélico. A mensagem de Jesus Cristo é o viés de suas composições. Suas palavras e expressões ainda que estejam tocadas pelo específico de sua sensibilidade e criatividade, obviamente estão sinergizadas nas palavras do mestre de Jesus. Sua bibliografia é extensa. Ao comemorar 10 anos como cantor lançou um dos mais belos trabalhos de sua carreia, um disco intimista, diferente de tudo que havia produzido, o CD “Sou um Zé da Silva e outros tantos” pela editora Paulinas, em que faz uma verdadeira homenagem a música de raiz e resgate a cultura popular.
Tentei por vários dias entrar em contato com o Padre Fábio de Melo (que tem uma agenda lotada de compromissos) para falar de temas que até então não haviam sido abordados. Tarefa difícil, pois perguntaram a ele tudo ou quase tudo sobre religião. Nesta entrevista que segue ele fala, dentre outros assuntos, sobre teologia, poesia e como concilia o exercício religioso e as atividades artísticas. Leia:


Essa é a primeira vez que o senhor vem a João Pessoa?
Não. Na verdade João Pessoa já faz parte da minha vida. Minhas primeiras experiências com a música católica foram vividas aqui nesta terra.

Além do exercício religioso o senhor é professor, músico e escreve poesias. Entre ser professor, escrever poesia e música, o que mais o senhor se identifica ou ambas atividades se completam?
Eu não consigo me identificar compartimentado. Quando penso no que faço imediatamente eu me reporto ao que sou. É um jeito interessante de reconciliar minhas inúmeras atividades. A consistência do eu é que assegura um desdobramento das atividades sem o risco da perda da identidade. Gosto de ser, antes de fazer.

O senhor conhece algum poeta paraibano?
Conheço sim. A Paraíba é terra de letras. A poesia está por toda parte. Gosto muito de Augusto do Anjos, mas procuro conhecer as riquezas ainda desconhecidas. Os poetas do cotidiano, gente que ainda não alcançou o reconhecimento, mas que com mestria tornou-se tradutor dos sentimentos do povo.

Hoje muito mais pessoas procuram as faculdades e cursos de teologia não apenas para ingressar na vida religiosa, mas para ter conhecimento. A quê o senhor atribui esse interesse das pessoas pela religião?
A fé é uma mistura de certeza e dúvida. Não é possível crer, sem antes ter duvidado. A Teologia é uma palavra sobre Deus. Palavra que se movimenta no tempo. Por isso a investigação teológica é tão necessária nos dias de hoje. Teologia é experiência de desvelamento. Deus se mostra na vida, e nós, por meio do discurso teológico, tentamos dar nome a esta revelação. O que sabemos sobre Deus é também uma forma de saber sobre nós mesmos. Conhecer a Deus é também conhecer a humanidade. Neste tempo onde prevalece o interesse por Deus, de alguma forma identificamos o desejo de resolver as questões humanas. São dois fios entrelaçados. Divino e humano. O estudo sobre um lança luzes sobre o outro. E assim vamos compondo o tecido deste tear da existência.

A teologia sistemática é o ramo da teologia cristã que reúne as informações extraídas da pesquisa teológica, organiza-as em áreas afins, explica as suas aparentes contradições e, com isso, fornece um grande sistema explicativo. Não é isso? Já que ela tenta explicar “tudo” ou “quase tudo” como ela explicaria a violência no mundo?
O conceito de perfeição é muito fértil para entendermos esta questão. Tudo o que é perfeito é também processual. O acabado está distante de ser perfeito, porque corre o risco de cair de moda. Uma realidade para ser perfeita precisa atender ao movimento do tempo. Assim é o mundo. É perfeito, mas sofre das conseqüências do movimento. A violência do mundo é fruto das escolhas que fazemos e que atentam contra sua perfeição. O mundo criado é um mundo perfeito porque precisa de retoque constante, mas no momento em que abrimos mão da parte que nos cabe, de alguma forma estamos condenando o mundo à condição de caos.

Qual o ponto de vista cristão sobre o mundo?

Um dos grandes equívocos que nós podemos identificar no cristianismo é justamente o conceito de mundo. Isto se dá devido o fato de no contexto joanino a palavra mundo se referir ao império romano. É contra esta estrutura que Jesus se posiciona. O mundo que era contrário à felicidade humana precisava ser evitado, mas Jesus não se referia à realidade criada. O mundo, este lugar onde estamos situados é naturalmente bom. Mas não podemos negar que a metáfora do império que destrói ainda vale para os dias de hoje. Há muitas estruturas pecaminosas nos engolindo aos poucos.

O senhor é um padre jovem, bonito, tem uma voz privilegiada, é uma pessoa sensível, fala e escreve bem, e ainda por cima é poeta. Mas, também, como o senhor mesmo diz, é humano demais. Toda essa mitificação que as pessoas fazem de sua imagem não o incomoda e atrapalha?
Claro que sim. Ser imaginado é uma forma de aprisionamento. O que faço é reivindicar o direito de ser gente, de poder sofrer e de não ter respostas prontas para tudo. Não sou adepto de uma religião que responde a todas as perguntas do mundo. A religião que gosto de ensinar é a que ajuda a conviver com as questões.

O senhor nunca pensou em transformar em livro sua dissertação de mestrado?
Ainda não. O tema é interessante, mas precisa passar por um processo literário que ainda não tive tempo para realizar. Quem sabe um dia...

Quais suas pretensões para 2007? Algum livro novo?
Vou escrever muito neste ano. Estou me programando para isso. Vou lançar meu primeiro livro de contos: “Mulheres de aço e de flores”. Lançarei também dois livros pela Canção Nova: “Quem me roubou de mim? O seqüestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa”, e “Uma palavra que lhe faça bem.”
Adriana Crisanto
Jornalista
Foto: Divulgação da Talentos Produções
*Matéria publicada no caderno show do jornal O Norte em 17 de março.

terça-feira, março 13, 2007

Teatros pedem socorro


Enquanto os grupos de artistas se reuniam para elaborar um documento manifesto a ser entregue as autoridades públicas, reivindicando melhorias na política cultural do Estado e do Município, o diretor do Teatro Ednaldo do Egypto, Fabiano do Egypto, se contorcia com a possibilidade de ver o teatro, herdado de seu pai, fechar as portas em definitivo, devido aos prejuízos financeiros que ultrapassam a R$ 3,6 mil.
Após a divulgação na imprensa de que o teatro fecharia suas portas, Fabiano do Egypto recebeu convite de dois políticos para uma conversa e verificar a possibilidade de resolver a situação do não fechamento da casa. “Se até o final dessa semana não conseguir resolver a situação, infelizmente vou ter fechar as portas do teatro e vender para alguma empresa ou igreja”, desabafou o diretor do teatro que teve, em 2006, uma receita total inferior a R$ 21 mil.
Fabiano do Egypto diz que há muito tempo vem procurando apoio dos órgãos públicos do Estado e do Município sem obter sucesso. Ele contou que no ano passado o único órgão que teve interesse em ajudar foi a Prefeitura Municipal, mediada pelo Vereador Fúba, na tentativa de obter isenção dos impostos municipais, no entanto, o prefeito Ricardo Coutinho, não encontrou respaldo legal na Lei de Responsabilidade Fiscal.
A proposta apontada foi à realização de um convênio entre a administração pública municipal e o teatro para realização de oficinas e cursos para os estudantes da rede municipal. O valor estipulado foi de R$ 3 mil por mês. Mas, o acordo esbarrou na Secretaria de Educação do Município, que alegou não ter condições de arcar com os custos do IPTU do imóvel, além do salário de dois funcionários: um iluminador e uma secretária.
Sobre essa questão Fabiano do Egypto disse que não pediu a prefeitura descontos no IPTU, mas adiantou que o valor do imposto a ser pago pelo teatro este ano será de R$ 1.319,06. “Fora à taxa do lixo. Não tenho condições infelizmente”, contou emocionado. A reportagem procurou o secretário de educação do Município, Walter Galvão, durante toda a manhã e o mesmo não pode atender por está despachando os diretores das escolas.
Fabiano do Egypto diz que viu nascer aquele teatro de um sonho de seu pai. “Ele tinha um sonho de erguer o primeiro teatro particular do Estado e conseguiu”, disse. Ednaldo do Egypto conseguiu construir o teatro com o dinheiro de sua aposentadoria de professor universitário, coisa inédita nesse país.
O teatro tem 172 lugares e um sistema ainda precário de refrigeração. , foi palco de espetáculos como o show de lançamento do CD “Aos vivos”, de Chico César, as comédias “Vovô viu a uva” e “Vovó viu a ave”, com Cristovam Tadeu, humorísticos com Zé Lezin, Piancó, Márcio Tadeu e peças infantis como “Os três porquinhos”, “Os três mosqueteiros”, “Rock monstro” e “Scooby-doo”. Este final de semana apresenta “Espantaram o espantalho” e, na próxima semana “O gato de botas”, ambas para crianças.

A pauta do Ednaldo do Egypto custa R$ 100. Com dois espetáculos por final de semana e dando público suficiente para que este valor seja cumprido, o rendimento após cinco finais de semana é de R$ 2 mil. Mesmo com alguma renda extra vinda de cursos e oficinas, que são irregulares, o montante somado é inferior aos mais de R$ 3 mil necessários para custear a casa. “Este é um teatro privado, que deveria dar lucro, mas a realidade tem sido bem diferente”, conta Fabiano, que já teve três funcionários e hoje conta apenas com um que acumula as funções de iluminador e serviços gerais.

Teatro Lima Penante

Na semana passada o Teatro Lima Penante, que pertence ao Núcleo de Teatro Universitário da Universidade Federal da Paraíba (NTU/UFPB), uma parte do fôrro do teatro caiu devido às infiltrações, interrompendo uma oficina de música que estava acontecendo no local. O diretor do NTU, o ator Edílson Alves, comunicou que o teatro ficará sem funcionar por cerca de 40 dias e que todas as atividades programadas estão sendo canceladas, até que dos órgãos da prefeitura universitária tome as devidas providências.
O laudo que interrompeu as atividades no teatro foi dado pela Divisão de Manutenção e Conservação da Universidade Federal da Paraíba (DMC/UFPB), a engenheira, Ligia da Silva Brito. “Os espíritos do teatro estão soltos”, comentou Edílson Alves, um dos recordistas em bilheteria nos teatros paraibanos.
A história do Núcleo de Teatro Universitário se confunde com a do Teatro Lima Penante, inaugurado no dia 08 de fevereiro de 1980. O Núcleo é subordinado a Pró-Reitoria para Assuntos Comunitários (PRAC), setor responsável pelo estudo, pesquisa e produção teatral, através de ações extensionistas voltadas para o desenvolvimento cultural na região. As ameaças ao fechamento do Lima Penante também são constantes. Durante um tempo as atividades do NTU estiveram ameaçadas, pela falta de verba e de uma política cultural planejada, sem falar nas condições estruturais do teatro e no seu alojamento.
Apesar de ser considerado um teatro pequeno o Lima Penante possui uma boa acústica, o palco é elevado, tipo italiano, conta com 150 cadeiras, dois camarins, uma bilheteria, cabines de som e luz. Na noite de sua estréia quem subiu ao palco foi o espetáculo “A Noite de Matias Flores”, em que faziam parte do elenco: Ednaldo do Egypto (ator e diretor), Clizenite Assis, Ubiratan Assis, Carlos Lima, Osvaldo Travassos, Marcos Tavares e a atriz Nautília Mendonça, que se apresentou pela última vez.
O Núcleo de Teatro consiste num complexo físico de fundamental importância para o Estado, porque representa o resgate de anos de lutas e conquistas na relação universidade e movimento cultural, ao mesmo tempo em que concretiza nos espaços, planos e projetos de trabalho que provocam discussões sobre a real importância do teatro para as comunidades e de que forma beneficiam ou alteram a vida das pessoas enquanto cidadãos.

O NTU Núcleo, que abrange teatro, pousada, café, salas de ensaio e biblioteca, sofreram uma grande reforma na sua estrutura física. Em outubro de 1999 o NTU inaugurou a Biblioteca Ângelo Nunes, a Pousada Nautília Mendonça, a Praça Pedro Santos, onde funciona o bar e o restaurante (Café do Lima) e mais quatro salas de ensaio.

A Biblioteca de Artes Cênicas conta com um acervo de 418 livros sobre artes, história do teatro no Brasil, nordeste e na Paraíba, abriga periódicos (cartazes, calendários, programas, folders, textos e agendas). Possui ainda um arquivo fotográfico dos espetáculos encenados no Teatro Lima Penante. A biblioteca passou a se chamar Ângelo Nunes, uma homenagem do Núcleo ao jovem ator e diretor de teatro falecido em acidente de carro. Ângelo foi diretor de uma das peças mais vistas no Teatro Lima Penante, o premiado espetáculo “Não se incomode pelo Carnaval”. O ator também deixou sua contribuição para o Curso de Teatro para Crianças e Adolescentes, ministrando aulas nos cursos promovidos pelo Núcleo.

O presidente do Sindicato dos Artistas do Estado da Paraíba (Sated), o ator Horiebe Ribeiro, lamentou o fechamento do teatro Ednaldo do Egypto e diz que a crise no teatro paraibano não é geral. “Os artistas sofrem com a falta de apoio e com a desunião da própria classe artística” comentou Horiebe que está à frente do sindicato desde 2005.
O Sated mesmo funciona apenas com a metade do número de artistas que deveria funcionar. De acordo com ele, contribuem com o sindicato regularmente apenas 15 sócios. A mensalidade é R$ 10,00 e anual fica por R$ 60,00.

Adriana Crisanto
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O NORTE, em março de 2007.
Foto: de arquivo.

sábado, março 03, 2007

Paixão de Humberto


Técnicas de circo e a verticalidade do teatro de rua são alguns aspectos inseridos no espetáculo “Jesus, uma Paixão”, montagem teatral promovida anualmente pela Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), durante a Semana Santa, na Praça do Bispo, em João Pessoa. O ator e diretor, Humberto Lopes, foi o escolhido para dirigir o espetáculo religioso que narra sobre a história da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, na visão das mulheres.
Humberto Lopes e Celly Freitas (autora do texto) concorreram ao edital de seleção da Funjope com outros três de diretores locais. Essa é a quarta vez que Humberto participa de montagem sobre a história de Cristo. Há cerca de 12 anos ele produziu três espetáculos, da mesma natureza, na gestão do então secretário de educação Raimundo Nonato.
A montagem será diferente dos anos anteriores. Ela estará fundamentalmente centrada nas técnicas do espetáculo de rua, com o uso da verticalidade. Terá o espaço urbano como cenário e uso das técnicas de circo, sem deixar de fora os aspectos da cultura popular.
Uma das coisas que incentivou o diretor a concorrer o edital para encenação do espetáculo foi o fato de ser uma montagem centrada no ponto de vista das mulheres. “Costumo dizer para alguns amigos que estou dirigindo o espetáculo com meu lado feminino”, se diverte o diretor que sempre esteve ligado aos órgãos que apóiam a luta pelos direitos das mulheres no Estado.
“A concepção do espetáculo em si é como se ele não existisse, uma coisa de mesa-teatro, que tenta aproximar o Deus do humano” explicou Humberto Lopes. A história é narrada no plano da realidade (dias atuais) e no plano da memória que são os acontecimentos ocorridos no passado histórico. A memória será mantida através dos figurinos do espetáculo e no cenário.
No papel das lavadeiras narradoras da história de Cristo estão as atrizes: Patrícia Braz, Melânia Silveira e Francijane Cavalcanti. O personagem central Jesus será interpretado pelo ator Daniel Porpino e Maria será dramatizado pela atriz Valeska Picado. No elenco estão ainda os atores: Ângelo Guimarães (Judas), Fernando Teixeira (Caifás), Vladimir Santiago (João Batista), David Muniz (Pilatos), Neto Ribeiro (Herodes), Kilma Farias (Salomé). Interpretando os evangelistas estão os atores: Joti Cavalcanti (Pedro), Joevan Oliveira (Tiago), Felipe de Oliveira (André) e Paulo Henrique (João).
Além dos 55 atores em cena Humberto coordena uma equipe com cerca de 150 pessoas. São técnicos de luz, som, imagem, maquilagem e outros tantos profissionais. A parte cantada de “Jesus, uma Paixão” será realizada por um coral de vozes femininas e uma orquestra de pequena formação que serão coordenadas pelo maestro Carlos Anísio.
Uma das características do espetáculo é a utilização do tempo e espaço urbanos e nesta montagem, de acordo com Lopes, todos os espaços da praça serão aproveitados de uma forma ou de outra. Como o espetáculo está centrado na imaginação das lavadeiras os elementos do circo vão ajudar a compor a idéia essencial do teatro que é o caráter lúdico.
A proposta de Humberto Lopes é que o espetáculo seja encenado uma média de dez vezes, durante toda a Semana Santa. “Essa gestão deu uma nova cara ao projeto, à medida que foi democratizado o acesso à Paixão de Cristo e valorizado o artista local”, destacou.

Sobre o Diretor

Humberto Lopes nasceu em Alto Santo (sertão do Ceará), mas desde da infância reside em Campina Grande, município localizado a cerca de 118 quilômetros, da Capital, João Pessoa. Toda a formação artística foi em Campina Grande, onde participou de todo movimento artístico-cultural das décadas de 1970, 1980 e 1990.
Embora venha de uma formação católica Humberto diz que foi seminarista, espírita, comunista, e ateu e mesmo não sendo um católico fervoroso diz que a espiritualidade está em tudo e acredita que o mundo ainda não piorou porque as pessoas ainda acreditam em Deus. “Trabalhar com um tema como a Paixão de Cristo termina transformando a gente em pessoas melhores ou mais sensíveis que já é melhor”, disse.
Há cerca de 20 anos que atua em teatro. Sempre esteve ligado ao teatro de rua, embora seu processo criativo abarque várias coisas ao mesmo tempo. Coordena o grupo “Quem tem boca é para gritar” com quem já produziu 16 montagens teatrais de rua e 10 de palco. Foi ator e diretor de “A Feira”, “Lampião vai o inferno buscar Maria Bonita”, “Paixões urgentes”, “A árvore dos mamulengos” (vencedor de prêmio em festivais de teatro no Paraná), “Trupizupe o raio da silibrina” (texto de Bráulio Tavares), “A festa do Rei”, “As aventuras de uma alucinada”, “Quem tiver achando ruim que saia”, “Quatro na Lona”, “A farsa do advogado Pathelin” (espetáculo com penas de pau), entre outros.
No cinema atuou no filme “A Sintomática Narrativa de Constantino”, do diretor Carlos Downling, “Por Trinta Dinheiros”, filme de Vânia Perazzo, e recentemente gravou cenas para minissérie A Pedra do Reino.

Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Arquivo O Norte
Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte, 4 de março de 2007.






segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Som da Terra



Munido de uma enxada o poeta, arte-educador e percussionista paraibano Babilak Bah esteve de passagem por João Pessoa para divulgar o seu mais recente trabalho, o disco “Enxadário: Orquestras de Enxadas”, lançado no final do ano passado em Belo Horizonte (MG), onde reside atualmente.
O disco consiste num trabalho experimental de percussão. O CD contém onze músicas. Dez de sua autoria e a última faixa “Xote dos Poetas”, uma canção de autoria de Zé Ramalho e José Carlos Capinam. Música pouco conhecida e aqui ganha uma nova adaptação e interpretação. A canção é uma homenagem de Capinam e Zé Ramalho aos poetas.
O Enxadário de Babilak desafia o entendimento do que seja a música experimental do mundo. Os sons que saem das enxadas misturam-se aos instrumentos clássicos de forma que há pouco acordo sobre quão experimental uma música pode ser, antes de ser considerada apenas ruído.
Geralmente as bandas experimentais possuem instrumentos pouco conhecidos, modificados, ou utilizados de maneiras inovadoras; efeitos estranhos aplicados de formas pouco convencionais que misturam gêneros opostos, como música eletrônica e música clássica, por exemplo. Mas, a música produzida por Babilak desafia todas as concepções normais de como uma música deve ser, e extrapola os limites popularmente conhecidos.
As músicas são um pouco de tudo isso, com a diferença que existe um conteúdo “estético bacana” (como diria Zeca Baleiro), pois carrega consigo um apelo social forte, uma vez que reflete a voz dos trabalhadores rurais e chama atenção para questão do trabalho, da terra e das etnias no Brasil. O registro é ao mesmo tempo simbólico, traz um signo, a enxada, em que o artista denuncia o diabólico (a questão da Reforma Agrária e do êxodo rural).
O trabalho é resultado de mais de oito anos de pesquisa e várias oficinas ministradas para meninos de ruas e portadores de doenças psíquicas. Acompanham Babilak Bah neste trabalho músicos mineiros. Pode-se dizer que esse registro musical está inserido na concepção de “obra aberta”, ou seja, quando o artista permite que outras pessoas possam intervir no trabalho, ajudando a compor ou modificar algo dentro daquilo que o artista desenvolve, para que as subjetividades possam dialogar e dela sair um produto. “Eu gosto de dizer que esse trabalho não é apenas um trabalho de música, mas um trabalho poético, antropológico, sociológico, político e cultural”, acrescentou.
Ao olhar profundamente percebe-se neste “Enxadário” um trabalho biográfico do artista, pois nele está contido um pouco da história de vida de Gilson César da Silva, seu nome de batismo, filho de uma empregada doméstica e mãe solteira, dona Iracema Gomes da Silva, que resolve largar a enxada e a dureza da fome em Sapé, município localizado a cerca de 55 quilômetros da Capital, João Pessoa, para criar os filhos na Capital.
Da mãe, que também era emboladora de coco de roda, herdou o gosto pela palavra. “Cresci ouvindo seus cânticos e rimas populares de tom surrealista e às vezes, mera lenda. Aos 5 anos fugia para um bar próximo de casa para cantar e extrair som do corpo; voltava com os bolsos cheios de moedas e sorrisos que contaminavam toda família”, comentou.
Na infância batucava em pratos, latas, garrafas e rabiscava poemas na parede do banheiro para desespero de sua mãe. Habituado a solidão, criava mil histórias. Ele conta que foi criado na rua ao som das discotecas, vivia em acampamentos nas praias com emboladores e repentistas populares. Na adolescência conheceu Jaguaribe Carne (Pedro Osmar e Paulo Ro), sua maior influência musical, e não perdia os festivais de música. “Foram encontros com pessoas notáveis que mudaram radicalmente meu destino”, disse.
Conviveu com Aderaldo Leite com quem partilhou bares e a filosofia de Nietzsche, Bacunin, Gramsci e nomes que ajudaram a construir a sua revolução. Através de Maria de Nazaré Zenaide, psicóloga na associação de moradores do conjunto Tambaí, na cidade de Bayeux, aprendeu a valorizar a cultura popular, a negritude e conheceu os trabalhos de Pierre Verger, Naná Vasconcelos, Paulinho da Viola, Violeta Parra, Vítor Jarra e outros nomes da cultura latino-americana.
Envolveu-se com o movimento negro de João Pessoa e conheceu o multicultural, João Balula que percebeu suas inquietudes e o incentivou para o teatro e declamação de seus poemas, até então escondidos num baú. No final da década de 1980, ingressou na militância política, onde aprendeu a ter uma visão critica do mundo. Experimentou teatro, música e dança no curso de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e realizou performances em vários lugares do país. Morou em São Luis (MA), Recife (PE), Salvador (BA), Brasília (DF), Florianópolis (SC), Belo Horizonte (MG) e Buenos Aires.
Quando ainda residia na Capital era conhecido como Gilson Babilak, nome que registrou no seu segundo livro de poesia (Vôo Miragem). O nome Babilak nasceu nos tempos de acampamento na praia de Jacumã (litoral sul) ao começar tocar atabaque. “Uma pessoa na época disse que quando eu tocava um instrumento saia um monte de Babilak. Foi meu batizado”, revelou. O primeiro trabalho em Minas Gerais ele já assinava como Balilak foi quando resolver buscar suas raízes africanas e acrescentou o “Bah”, que é uma homenagem a cultura africana.
A primeira vez que viu alguém tirando som de uma enxada foi o percussionista Chiquinho Mino, num antigo projeto musical do Bar da Pólvora, centro histórico. “No outro dia corri numa feira e comprei uma enxada que tenho até hoje e se tornou à enxada mãe do projeto”, revelou. A enxada, enquanto instrumento percussivo no seu trabalho, só começou a fazer sentido durante a Eco 92, ao assistir a apresentação de um grupo folclórico na Bahia.
A paixão pela enxada levou o músico a criar 170 anagramas criados a partir da palavra enxada. Com isso criou também o dogma da enxada e o paradigma da enxada, que ele traz impresso na contra-capa do disco.
Hoje paralelo às atividades artísticas Babilak realiza um trabalho social com pessoas portadoras de comportamento psíquico, ou seja, os loucos. Esse trabalho consiste num projeto vinculado à Secretaria de Saúde do Município de Belo Horizonte (MG), órgão da Prefeitura Municipal. “Lá existe um movimento anti-manicomial, que pôs fim a todos os manicômios da cidade e a partir dessa ação foi criado um projeto substutivo ao manicômio, implantado em várias regiões de Belo Horizonte na forma de Centro de Convivência Social, onde os artistas da região passaram a trabalhar com as pessoas portadoras de doenças psíquicas”, explicou Babilak, que dá aulas de literatura e música em um dos centros sociais.
O trabalho com os portadores de doenças psíquicas resultou o seu primeiro registro musical intitulado “Trem Tan Tan”, que consiste num trabalho percussivo com pedaços de ferro, lixos e sucatas confeccionadas pelos próprios pacientes. “Trem Tan Tan” e “Enxadário: Orquestra de Enxadas” está sendo vendido em João Pessoa no Gabinete Cultural e no Sebo Cultural, no centro da cidade. Outras informações sobre o trabalho de Babilak Bah pode ser visto na internet, através do endereço eletrônico http://www.babilakbah.mus.br/ Outros contatos do artista são: babilakbah@hotmail.com ou (37) 9913.9650.

Serviço:
Enxadário: Orquestra de Enxadas
Balilak Bah (independente)
Onde encontrar: Gabinete Cultural e Sebo Cultural
Preço: R$ 17,00

Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação
Matéria publicada no caderno Show do jornal O NORTE, em fevereiro de 2007.


Mais um premio para Suely








O filme “O Céu de Suely” recebeu mais um prêmio. Desta vez o prêmio veio do 10o Festival Internacional de Cinema de Punta Del Este realizado entre os dias 4 e 11 de fevereiro, no Uruguai. Participaram do Festival os filmes brasileiros: O Céu de Suely, de Karim Ainouz, O cheiro do ralo, de Hector Dalia, É Proibido Proibir, de Jorge Durán, e o desenho animado Wood e Stock, Sexo orégano y rock'n' roll, de Otto Guerra, inspirado na obra do quadrinista paulista Angeli.
O festival, que coincide com os festejos pelos 100 anos de Punta del Este, homenageou este ano o veterano diretor brasileiro Nelson Pereira dos Santos, conhecido mundialmente por clássicos como Rio 40 Graus, Vidas secas e Memórias do Cárcere.
A seleção de filmes do festival inclui produções da Argentina (Nacido y criado, de Pablo Trapero; El camino de San Diego, de Carlos Sorín; El destino, de Miguel Pereira, e La Punta del diablo, de Marcelo Paván): Bolívia ( Lo más bonito de mis mejores años, de Martín Boulocq); Chile (Padre nuestro, de Rodrigo Sepúlveda, e Salvador Allende, de Patricio Gusmán): Peru (Chicha tu madre, de Gianfranco Quattrini) e Venezuela (El Don, de José Ramón Novoa): México (El violín, de Francisco Vargas Quevedo, Sólo Dios sabe, de Carlos Bolado).
"O Céu de Suely" já acumula 19 prêmios nacionais e internacionais, incluindo melhor filme e melhor atriz no Festival de Havana, três prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Arte (melhor filme, melhor diretor e melhor atriz) e três prêmios no Festival do Rio (melhor filme, melhor diretor e melhor atriz).
A atriz Zezita Matos, que recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante, na segunda edição do Festcine Goiânia, em novembro de 2006, comentou que o filme tem agradado a muitas pessoas e se tornado um marco no cinema nacional. “Além de que o filme mexe com o lado psicológico e social dos nordestinos. Mostra uma realidade sem artifícios”, acrescentou Zezita que será uma das principais atrizes do novo filme de Eliezer Rolim, O Sonho de Inacim.
O Céu de Suely conta à história de Hermila, uma jovem que volta de São Paulo com seu filho recém-nascido para a casa de sua família, no interior do Ceará. Ela espera a chegada do marido que deve reencontrá-la. Mas ele nunca chega. Sozinha, Hermila tenta reeinventar a sua vida, mas continua com o sonho de ir embora para o lugar mais longe possível.
O elenco é formado por Hermila Guedes, Maria Menezes, Zezita Matos, João Miguel, Georgina Castro, Mateus Alves e Gerkson Carlos. O Céu de Suely, produção de Walter Salles e Mauricio Andrade Ramos, foi dirigido pelo cineasta cearense Karim Aїnouz (o mesmo de Madame Satã).
Em entrevista para revista eletrônica de cinema Deustsche Welle o cineasta Karim Aïnouz disse que a dramaturgia de O Céu de Suely é mais indutiva do que dedutiva. O filme impressiona porque foge um pouco ao que já foi contado sobre o nordeste. E nem tudo é contado, tudo é muito induzido pelo espectador.
A linguagem narrativa que predomina no Brasil é da televisão, e ainda é, segundo Karim, bastante radiofônica, ou seja, para se entender uma novela, por exemplo, basta escutá-la, talvez não seja necessário vê-la. “Através da permanência do olhar do espectador sobre a imagem procuro levá-lo a descobrir o cotidiano das coisas e das pessoas. Não é realismo, é hiper-realismo”, comentou.
Neste filme Karim não pensa o Nordeste como um aspecto cultural. O sertão para ele vem como algo emocional da distância. O filme tem como cenário a cidade de Igatú, município do sertão do Ceará, e aparece como um não-lugar, um lugar de passagem para onde o personagem é catapultado, um saguão de aeroporto. Um espaço também cheio de ícones de tempos diferentes em um mesmo lugar, por exemplo, uma feira nordestina em frente a uma loja de produtos asiáticos de plástico vendidos por R$ 1,99.
Karim diz ainda, nesta mesma entrevista, que o Nordeste é também uma tradicional região de emigração e que compor o filme foi muito fácil, uma vez que ele mesmo foi criado entre mulheres fortes e divertidas. “Tentei imaginar como seria o contrário, se fosse à mulher que decidisse reinventar sua vida, que partisse, deixando tudo para trás”, finalizou.


Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte, em fevereiro de 2007.

Festa do Conto







“Festa de Ontem” é o título do conto que garantiu a professora e escritora paraibana Joana Belarmino o primeiro lugar na 9a edição do Prêmio “Um Livro é um Amigo”, promovido anualmente pela Associação dos Cegos e Ambíoples de Portugal (Acapo). O concurso é aberto a países de língua portuguesa e se destina a pessoas com deficiência visual ou com baixa visão.
De acordo com Joana Belarmino, a idéia do conto surgiu no ano passado quando foi convidada para participar do Clube do Conto da Paraíba. O Clube é composto por intelectuais que se reúnem todos os sábados para leitura de sua produção. Em cada reunião um tema é trabalhado para seja produzido o conto para o próximo encontro. “A Festa de Ontem foi o meu primeiro conto lido no Clube”, disse Joana.
O conto “A Festa de Ontem” concorreu com outros 12 trabalhos. O segundo lugar, categoria contos, também foi para um brasileiro, o gaúcho Daneil Gause. Na categoria poesia, os primeiros lugares foram para escritores portugueses. A entrega do prêmio, em dinheiro (250 euros), acontece no dia 10 de março em Coimbra. Além do prêmio os classificados recebem um kit com obras do escritor Miguel Torga, que este ano será o homenageado do concurso. “Também serão distribuídas obras dele publicadas em Braille”, acrescentou.
A cerimônia, segundo a escritora, terá um caráter especial este ano. Os vencedores sairão em passeio pelas ruas da cidade em carro aberto (um troler), visitando todos os pontos onde Miguel Torga viveu. Logo após haverá a leitura dos contos e poesias premiadas e a entrega do prêmio na sede da Acapo.
Não é a primeira vez que Joana Belarmino leva o prêmio dos concursos da Acapo. Ela foi à vencedora na oitava edição do concurso com o conto “As Tantas Cordas do Sonho”, em que escreveu sobre a questão da cegueira.
O concurso, desde que foi criado, tem a intenção de promover e incentivar o gosto pela leitura e escrita em pessoas portadoras de deficiência visual (produção literária em prosa e poesia). O desejo dos promotores do Prêmio “Um Livro é um Amigo” é que na décima edição comemorativa seja publicado um livro com os contos e poesias premiadas.
Joana Belarmino de Sousa é jornalista, professora de metodologia do curso de Comunicação e Turismo da Universidade Federal da Paraíba (Decomtur/UFPB). Concluiu o doutorado em 2004 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), em que trabalhou com os aspectos comunicativos da percepção tátil: a escrita em relevo como mecanismo semiótico da cultura, e foi orientada pelo professor José Amálio Pinheiro.
Sua produção é vasta. Publicou na revista Benjamin Constant, seção Relato, dois trabalhos: O que vê a cegueira (nº 16, agosto/2000) e A cegueira, o braille e o jornalismo: furos de uma reportagem (nº 27, abril de 2004), ambos disponíveis no site do IBC. Foi repórter de O NORTE. É autora dos livros: Dartanham, Um Gato com Gosto de Pinto" (literatura infanto-juvenil), Editora Moderna, São Paulo, 4a edição (1989); "O Patinho Criança" (literatura infantil), Edição Independente (1979); “Era uma vez uma vírgula” (Editora Idéia); "O Comício das Veias", (contos e poemas em parceria com o poeta Lau Siqueira), Edição Independente (1993); Dissertação de Mestrado "A Luta dos Grupos Estigmatizados Pela Cidadania Plena: Um Estudo Sobre o Movimento Associativista dos Cegos na Paraíba" (1996).
É a atual presidente Associação Paraibana de Cegos (Apace) entidade responsável por sociabilizar os portadores de deficiência visual, que recentemente promoveu o lançamento do Guia do Greenpace sobre o aquecimento global em Braille, distribuição do alfabeto escrito em Braille e homenageou os 198 anos de nascimento de Louis Braille, inventor do método de leitura e escrita para pessoas cegas.

Quem foi Miguel Torga?

Miguel Torga é o pseudônimo de Adolfo Correia Rocha (1907/1995). Foi um dos mais importantes escritores portugueses do século XX. Filho de um camponês freqüentou o seminário e emigrou para o Brasil em 1920, aos 12 anos, para trabalhar na fazenda de café de um tio, em Leopoldina (Minas Gerais). Teve seus estudos patrocinados pelo tio e ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Publicou seu primeiro livro de poesia intitulado “Ansiedade”, em 1928.
Exercer a sua profissão de médico a partir de 1939 e onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a formatura em Medicina, com apoio financeiro do tio do Brasil. A obra de Torga tem um caráter humanista: criado nas serras transmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza. Considerado por muitos como um avarento de trato difícil e caráter duro, foge dos meios das elites pedantes, mas dá consultas médicas gratuitas aos pobres e é referido pelo povo como um homem de bom coração e de boa conversa. Foi o primeiro vencedor do Prêmio Camões.


Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Foto Ovideo Carvalho
Matéria publicada no caderno Show do jornal O Norte em fevereiro de 2007.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Oscar 2007





Neste domingo (25) pode preparar o balde de pipoca e sentar-se na frente da televisão para assistir a entrega de prêmios da 79a edição do Academy Awards, popularmente conhecido no Brasil por “Oscar 2007”. A solenidade de entrega acontecerá no Kodak Theatre, em Los Angeles. A transmissão do evento será realizada em canais de televisão aberta e fechada do Brasil.

A Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood divulgou na semana passada os indicados ao prêmio deste ano. Entre os concorrentes indicados a categoria de melhor filme estão: Babel, Os Infiltrados, Cartas de Iwo Jima, Pequena Miss Sunshine e A Rainha. Na categoria de melhor diretor foram indicados Martin Scorcese (Os Infiltrados), o mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu (Babel), Clint Eastwood (Cartas de Iwo Jima), Stephen Frears (A Rainha) e Paul Greengrass (Vôo United 93)

No item melhor roteiro original estão: Guillermo Arriaga (Babel), Iris Yamashita and Paul Haggis (Cartas de Iwo Jima), Michael Arndt (Pequena Miss Sunshine), Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno) e Peter Morgan (A Rainha). Na categoria de melhor atriz foram indicadas: Penélope Cruz (Volver), Judi Dench (Notas sobre um Escândalo), Helen Mirren (A Rainha), Meryl Streep (O Diabo Veste Prada) e Kate Winslet (Filhos da Esperança).

Entre os atores indicados estão os nomes de Leonardo DiCaprio (Diamante de Sangue), Ryan Gosling (Half Nelson), Peter O'Toole (Vênus), Will Smith (À Procura da Felicidade), Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia).

A lista de indicações é extensa e ao mesmo tempo cansativa, e não daria para citar todos. A internet disponibiliza uma série de comentários sobre o evento mais importante do cinema mundial que podem ser acompanhado nos websites do Yahoo, Terra e no site do canal de televisão fechada TNT. De acordo com os websites a disputa ainda é incerta e aponta vários favoritos. Os analistas de premiações da agência Reuters, por exemplo, identificaram "Pequena Miss Sunshine" e "Os Infiltrados" como favoritos certeiros para o Oscar, mas disseram que a disputa por vários dos prêmios ainda está totalmente aberta.

O diretor do site Movie City News, David Poland, acredita que esse ano será bem dividido. “Prevejo que nenhum filme receberá mais que três Oscar e que os vencedores estarão espalhados", comentou. A produção independente "Pequena Miss Sunshine" ganhou impulso, segundo os especialistas, na disputa pelo melhor filme, depois de ser premiada como melhor longa pelo Sindicato dos Produtores da América, melhor elenco pelo Sindicato dos Atores e melhor roteiro pelo Sindicato dos Roteiristas.

O policial "Os Infiltrados", de Martin Scorsese, também tem chances boas, já que Scorsese foi considerado o melhor diretor pelo Sindicato dos Diretores e William Monahan recebeu o prêmio de melhor roteiro adaptado do Sindicato dos Roteiristas.

A decepção de Ennio Morricone

Para alguns artistas, produtores e cineastas de plantão as indicações do Oscar 2007 causaram uma certa decepção. Foi o caso do compositor italiano Ennio Morricone. Ele é o autor de trilhas sonoras de 400 filmes e vencedor de importantes premiações do cinema. O músico, em entrevista ao Cine Click, desabafou que há uma incômoda lacuna na sua estante.

Embora faça criticas Morricone já recebeu da Academia cinco indicações ao prêmio de melhor trilha sonora nos filmes: Cinzas no Paraíso, A Missão, Os Intocáveis, Bugsy e Malena, mas não conseguiu vencer em nenhuma das ocasiões.

Morricone, que completa 79 anos este ano, diz está desiludido e que havia descartado a hipótese de entrar para o hall de vencedores. O que consola Ennio Morricone é que ao seu lado estão outros ícones do cinema que nunca levaram a pequena estátua para casa, como o diretor Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock.

“Após cinco indicações, eu não esperava mais nada. De fato, esperava permanecer sem um Oscar. Estou em companhia de ilustres não-vencedores. Vejo o Oscar como uma casualidade da sorte – mesmo os que merecem ganhar. Isso não significa que não estou feliz. Recebi muitos prêmios maravilhosos e incríveis, mas ainda havia um pequeno vazio. Talvez o Oscar o preencha”, comentou Morricone.

O Brasil no Oscar

O Brasil vem há muito tempo sonhando com a estatueta dourada. Chegou perto, mas nunca levou um prêmio para casa. Este ano o longa-metragem de Marcelo Gomes, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, deveria representar o Brasil, mas ainda não foi dessa vez. Na opinião dos críticos brasileiros, o filme de Marcelo teria condições de disputar uma vaga. No entanto, ao concorrer com 60 produções de todo o mundo, "Cinema, Aspirinas e Urubus" não foi indicado.

No ano passado o filme “Dois Filhos de Francisco – A História de Zezé di Camargo & Luciano”, escolhido pelo Ministério da Cultura para concorrer a uma indicação do Oscar 2006. O filme foi dirigido por Breno Silveira e levou mais de seis milhões de espectadores ao cinema. Mas, o drama dos sertanejos não convenceu aos integrantes da Academia, mesmo com todo lobby feito pela Conspiração Filmes e pela Columbia Pictures.

O excelente Diários de Motocicleta do diretor Walter Salles, em 2005, foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado (roteiro de José Rivera, baseado no diário escrito por Che Guevara durante uma viagem pela América Latina, em 1952) e Melhor Canção (pela música "El Otro Lado del Río", do cantor uruguaio Jorge Drexler), o filme é falado em espanhol, financiado por grupos estrangeiros e realizado por equipe latino-americana. Por ser considerada uma produção de vários países, o filme não pôde concorrer ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro.

Desde 1963 que o Brasil tenta concorrer ao prêmio da Academy Awards a concorrer à categoria de melhor filme estrangeiro. A primeira indicação nacional ocorreu em 1963, com "O Pagador de Promessas", dirigido por Anselmo Duarte. Acabou perdendo para o francês “Les Dimanches de Ville d´Avray”.

Muitos anos depois foi a vez de Sônia Braga e companhia concorrer com o filme “O Beijo da Mulher Aranha” cujos créditos de produção foram divididos entre Brasil e Estados Unidos, e foi indicada a quatro Oscars em 1986: Filme, Roteiro Adaptado, Direção (Hector Babenco) e Ator (William Hurt). Acabou levando apenas o último.

No ano de 1996, O Quatrilho voltou a sonhar como troféu de melhor filme estrangeiro. "O Quatrilho", de Fábio Barreto, conseguiu uma vaga entre os cindo indicados em 1996. A história de imigrantes italianos no sul do país perdeu para o holandês “A Excêntrica Família de Antonia”.

Na cerimônia de 1998, o Brasil voltou a fazer torcida. Desta vez, o indicado era "O Que é Isso Companheiro", filme de Bruno Barreto sobre a ditadura no país. Perdemos novamente para um holandês, “Caráter”.

Em 1999, o filme Central do Brasil foi indicado para duas categorias do Oscar: melhor filme estrangeiro e melhor atriz. Na primeira, perdeu para “A Vida É Bela”, do italiano Roberto Benigni. Na segunda, quem tirou o troféu das mãos de Fernanda Montenegro foi a norte-americana Gwyneth Paltrow, por sua atuação em “Shakespeare Apaixonado”.

No ano de 2004, o filme Cidade de Deus, apesar de ter ficado fora da disputa na categoria melhor filme estrangeiro, na premiação do Oscar ocorrida em 2003, o filme brasileiro surpreendeu ao receber quatro indicações para o troféu de 2004: Direção (Fernando Meirelles), Montagem (Daniel Rezende), Roteiro Adaptado (Bráulio Mantovani) e Fotografia (César Charlone).

Adriana Crisanto
Jornalista

adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O NORTE, em fevereiro de 2007.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Locadoras de DVD fazem pacotes para o carnaval



A opção para quem não vai brincar o carnaval é acompanhar as transmissões ao vivo pelas emissoras de televisão ou ir a locadora mais próxima de casa e alugar uns DVD´s. Mesmo com o fechamento de vários pontos de locação de filmes alguns lugares ainda resistem. Em visita as locadoras de João Pessoa conferimos o preço dos pacotes, as dicas de lançamentos e ficamos por dentro da crise que as locadoras de filmes estão enfrentando devido à onda da pirataria.

A Yellow Vídeo, da Epitácio Pessoa, uma das maiores da cidade, para concorrer com os piratas de filme e tentar escapar da crise, há cerca de dois meses (período de férias escolares), baixou o preço da locação para R$ 1,99 e está com pacotes especiais para o carnaval. A locadora funcionará sábado e domingo (17 e 18) em expediente normal. Locando três ou mais filmes, o cliente poderá devolvê-lo na quarta-feira de cinzas. Inclusive os lançamentos.

Quem mora na orla marítima paga a mais cara locação de DVD da cidade. Os preços variam entre R$ 4,00 (para os filmes mais antigos do catálogo) e R$ 5,00 (para os lançamentos). O preço, segundo os proprietários, é compensado com serviço que é oferecido em alguns locais, com atendimento, ambiente climatizado, opção de trailler para o cliente assistir os filmes antes da locação e lançamentos bastante atuais. “Aposta na qualidade do serviço foi o único jeito que encontramos para driblar a pirataria”, comentou Ricardo Closzer, proprietário da Ribalta Vídeo que tem aproximadamente oito mil títulos.

No centro e zona sul da cidade de João Pessoa (Bancários, Mangabeira e Valentina) são poucas as locadoras de filmes. Num passeio pelo bairro pode-se encontrar pequenos estabelecimentos, sem grande representatividade. No bairro da Torre uma das locadoras mais completas é Quality Vídeo. O gerente, Leonardo Medeiros, é um dos empresários de locadora que combate firmemente à pirataria e diz que a situação das locadoras é caótica.

A Quality, apesar de bem equipada, também tem um preço salgado para locação, mas neste feriado está com pacotes especiais que dá direito a filme grátis. O preço da locação para filmes antigos é R$ 3,00 e lançamento R$ 4,00. A loja é uma das poucas que fica aberta de domingo a domingo. Boa parte dos DVD´s são novos, pois estão ligados a cooperativa Rede Filme que garante a originalidade dos DVD’s.

Leonardo Medeiros tem um acervo aproximado de três mil filmes, entre novos e antigos. Uma das especialidades da Quality são os filmes épicos, de guerra, os faroestes americanos e clássicos como Ben Hur.

A Vic Locadora de Vídeos, no conjunto dos Bancários, o proprietário, Dougue Vicent, para driblar a crise da pirataria apelou para informática. Dividiu o ambiente em dois. De um lado as prateleiras com a locação de DVD’s (que custa R$ 2,50 neste carnaval) e de outro quatro micro-computadores com internet banda larga paga a R$ 2,00 a hora. O mesmo pode ser observado nas locadoras do centro e dos bairros de Tambiá, Torre, Jaguaribe, Bairro dos Estados e Jardim 13 de maio.

Em quase todas as locadoras quando se entra vê-se uma variedade de balas, pipoca, sorvete, refrigerante dividindo o mesmo espaço com a mercadoria filme. É exatamente aquilo que diz o sociólogo Georg Simmel no livro O Dinheiro na Cultura Moderna (Ed. UnB): “É rigor das relações econômicas da vida moderna que acaba ampliando a vida monetária e social dos indivíduos”. Outra forma de escapar da crise monetária tem sido a conversão de fitas VHS para DVD. O serviço é oferecido apenas pelas locadoras de porte maior. A Ribalta (Tambaú, Manaíra e Bessa) e a Quality Vídeo se mostram bem equipadas neste item e ainda disponibilizam de websites na internet para que o cliente possa conferir antes de ir a loja alugar um filme.

Sugestoes das locadoras

Mesmo diante desta realidade os proprietários de locadoras nos deram sugestões de filmes que vão ajudar aqueles que não tem nem dinheiro no bolso e nem samba no pé e nem tão pouco gostam do “frever de mono”.

Um dos filmes mais locados na Yellow Vídeo, de acordo com a gerente, Luciana Gabinio, são as temporadas do seriado Lost, e também os filmes de ação como: “Piratas do Caribe – o baú da morte” e “Velozes e Curiosos”. Entre os lançamentos uma das dicas da locadora é “Nacho Libre”, uma comédia ao estilo besteirol mexicano que tem agrado jovens e adultos.

O título foi lançado no ano passado e o filme conta à história de Nacho (Jack Black) que foi criado em um monastério mexicano, localizado em Oaxaca. Para tentar salvar o local ele decide se inscrever em um torneio de luta livre. Porém esta atitude tem também outro motivo: o interesse de Nacho pela irmã Encarnación (Ana de la Reguera), uma bela freira mexicana que chegou recentemente ao monastério.

Um dos filmes mais locados da Yellow é “Superman o retorno” e entre o gênero documentário “Quem somos nós” dos diretores William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente. O filme fala de Amanda (Marlee Matlin), uma mulher que entra numa fantástica experiência ao estilo ”Alice no País das Maravilhas” enquanto seu monótono cotidiano começa a se desmanchar. Esta situação revela o incerto mundo escondido por trás daquilo que se costuma considerar realidade. Amanda mergulha num turbilhão de ocorrências caóticas que revelam um profundo e oculto conhecimento do real. Ela entra em crise e questiona o sentido da existência humana.

A dica para locação de Ricardo Closzer da Ribalta Vídeo são: “Click” de Frank Coraci, com roteiro de Steve Koren e Mark O'Keefe. Click conta à história de Michael Newman (Adam Sandler), casado com Donna (Kate Beckinsale), com que tem Ben (Joseph Castanon) e Samantha (Tatum McCann) como filhos. Michael tem tido dificuldades em ver os filhos, já que tem feito serão no escritório de arquitetura em que trabalha no intuito de chamar a atenção de seu chefe (David Hasselhoff). Um dia, exausto devido ao trabalho, Michael tem dificuldades em encontrar qual dos controles remotos de sua casa liga a televisão. Decidido a acabar com o problema, ele resolve comprar um controle remoto que seja universal, ou seja, que funcione para todos os aparelhos eletrônicos que sua casa possui.

Outro título recém chegado na locadora Ribalta é “O Diabo Veste Parda” que traz no elenco Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Adrian Grenier, Simon Baker, Gisele Bündchen, com direção de David Frankel. O filme fala sobre o mundo das mulheres e tudo que tem de melhor e pior neste universo. A história se baseia no livro homônimo de Lauren Weisberger, que foi escrito pela autora como vingança contra a toda-poderosa Anna Wintour, editora da revista Vogue. Lauren era assistente de Anna e teve que comer o pão que o diabo amassou para agüentar a vaidade e auto-centrismo da chefe. Se fosse homem, pelas coisas que a madame aprontou para ela, teria enfartado ou decidido os oito anos que a suportou no braço.

Na Quality Vídeo as dicas de Leonardo Medeiros são: “A Sonhadora”, que tem no elenco a atriz mirim Dakota Fanning (de Guerra dos Mundos). Ela é Cale, uma garota que sonha em ter um cavalo de corrida na fazenda onde vive. Para tentar satisfazê-la, já que a família não possui dinheiro para comprar um, seu pai negocia com o patrão uma égua que está com a pata quebrada. Apesar de todas as dificuldades, eles acreditam que podem recuperar a égua, apelidada de Sonhadora, e que um dia já foi uma grande campeã.

Outra sugestão de Leonardo Medeiros é “A Casa do Lago” que tem no elenco Keanu Reeves, Sandra Bullock, Shohreh Aghdashloo, Christopher Plummer. O filme conta à história de Kate Forster (Sandra Bullock), uma médica solitária que morava numa casa à beira de um lago. Ela passa a trocar cartas de amor com o novo morador da residência, o arquiteto frustrado Alex (Keanu Reeves). No entanto, percebem que existe um espaço de tempo que atrapalha o "relacionamento" entre os dois. Percebendo a aura de mistério em torno da troca de cartas, eles tentam driblar esse contratempo para que, finalmente, a hora certa para que se amem chegue.

Enquanto isso em Los Angeles

Enquanto as locadoras de filme sassaricam para sobreviverem em Los Angeles (LA), neste domingo (25), a Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood promove a entrega de prêmios mais famosa do mundo: a 79a edição do Academy Awards, onde as estrelas do cinema americano desfilam por um tapete vermelho com seus vestidos dourados, roupas de pingüim e muitos diamantes. E ficam dentro de um teatro lotado de artistas, com câmeras para todos os lados, a espera de receberem, ou não, um estatua dourada e careca, símbolo do evento, que ficou conhecida por Oscar.

Tamanha contradição só poderia vir desses americanos obcecados por dinheiro, poder, guerra e riqueza, e responsáveis por alimentar não apenas uma indústria cultural injusta, mas sustentar um sonho na cabeça daqueles que nem dinheiro dispõe para comer o feijão com arroz de cada dia e se nutrem da luz do cinema na tentativa de serem um pouco mais felizes.

Tudo, segundo os especialistas em cinema e cinéfilos de carteirinha, em nome da arte e da cultura. E que arte! Uma arte que muitas vezes só mostra uma realidade. E uma cultura que evidencia apenas o lado escuro ou trágico, ou como prefere Simmel, novamente, realidade apenas da cultura objetiva que se torna crescentemente cultivada e rica, seja em relação à técnica, ciência ou arte, enquanto os indivíduos se tornam, paradoxalmente, cada vez mais pobres, pouco cultivados e embriagados pela sociedade do Deus-dinheiro.


Adriana Crisanto
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Foto: Sandra Bullock em A Casa do Lago
Matéria publicada no caderno Show do Jornal O Norte