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domingo, março 23, 2008

Poesia abençoada

Nesta semana santa a dica cultural são dois livros do padre paraibano José Antônio Barbosa da Silva que recebi, há aproximadamente dois meses passados, quando o pároco, recém-chegado de suas missões na Espanha, Filipinas, Argentina, Uruguai e Paraguai presenteou-me com “Esperenzas del dia” (Editora Mis Escritos, Argentina: 2007, 64p) e “Dolor del Tiempo – vocês y poemas” (Editora D Primeira Mano, Paraguai: 2006, 61p.).

No momento em que recebi pensava comigo como é magistral a arte da palavra escrita em forma de poesia, como essa “coisa” pode extrapolar conceitos e juízo de valores. Nos tempos de hoje cristalizou-se a imagem de que a relação entre religião e poesia está em conflito, de que as duas formas de entender e sentir a realidade não são conciliáveis ou não se comunica (o que é totalmente equivocado).

Não é de hoje que os padres escrevem poesias. Só para lembrar Padre José de Anchieta escreveu em versos medievais o poema “De Beata Virgine Dei Matre Maria”, mais conhecido como “Poema à Virgem”, com 4.172 versos. Os autos misturavam características religiosas e indígenas, a primeira gramática do tupi-guarani (A Cartilha dos nativos).

A poesia do Padre José Barbosa é mais contemporânea que a de Anchieta, sem sombra de dúvida, pois como bem diz a prefaciadora de “Esperenzas del dia”, a poetisa Marta de Paris: “Toda obra criada deve identificar-se com o seu criador. Cada artista em sua época e sua arte”.

A surpresa se dá a cada poema lido. Sem nenhum alarde os versos são diálogos íntimos e livres do homem moderno que observa o cotidiano das pessoas no meio da rua, as vítimas e os assassinos de almas. Como também mostra suas angústias, dores, o seu cotidiano. “Não havia versos nas almas homicidas”, diz ele no poema “Incêndio em Setiembre”. E não havia mesmo padre José, não havia até quem os chegasse e olhasse de fora com tamanha expressão.

Aos poetas populares nordestinos ele dedica “Piedra de Molino” (p.44) em que comparar o homem do nordeste como pedra de um molino que segue sempre firme aos seus propósitos. Nas reentrâncias do poema a viagem estética de suas recordações de infância e a lembrança de seus heróis. Como ele bem diz: “Uso a filosofia para falar de uma rosa”.

Da página 50 em diante ele escreve pequenos poemas de três ou duas linhas, poemas curtos, parecidos com o haikai, uma pequena poesia com métrica e molde orientais. “Há dias que são tão escuros que se fazem noites”, diz um dos poemas.

E assim ele segue em todo livro construindo pontes entre o homem religioso e a poesia, e tenta mostrar que esse diálogo é possível, que pode inclusive ampliar o conhecimento do mundo seja de cientistas, poetas, seja dos intelectuais da tradição religiosa.

Já o segundo livro de sua autoria “Dolor del Tiempo – Voces y poemas” o tempo é o tema mais recorrente nos poemas. O tempo da agonia, o perdão do tempo, o tempo em qualquer lugar, o tempo de nascer e de morrer, de buscar tempo, de perder tempo, o tempo da guerra e da paz. Tudo tem seu tempo até para sentir a dor do tempo que parece nunca passar. Uma pessoa que sentiu de perto as poderosas armadilhas do tempo e lutou até quase ao desespero foi Santo Agostinho. Nos capítulos, senão me engano 14-28, do Livro XI das Confissões, ele se ocupa com o problema do tempo.

O pensamento geral de Agostinho e, conseqüentemente, seu pensamento sobre o tempo tem como base fundamental sua teoria da verdade, que consiste primariamente em entender a verdade como “aquilo que é”, lógica peculiar de sua época. É fazendo uso desta lógica e aplicando sua idéia da verdade na sua teoria do tempo que Agostinho chegou as suas conclusões sobre o passado e o futuro.

E é nessa seqüência entre o tempo futuro e o passado que os poemas de “Dolor del Tiempo – Voces y poemas” prossegue, como nos versos “Incandescência”, em que o poeta relembra os 60 anos da destruição de Hiroshima. É o tempo passado que deixaram marcas profundas nos muros da memória.

Na obra, em que até o silêncio se comunica, imprime muita simplicidade. A mística do livro seja ela de natureza religiosa ou humanística caminha como se enxergassem o invisível por detrás dos acontecimentos da vida. O único detalhe é que os dois livros são escritos em espanhol, o que por outro lado não dificulta em nada o entendimento, muito pelo contrário, talvez se vertida para o português não ganhasse tanta tenacidade.

Sobre o autor

José Barbosa da Silva é paraibano. Realizou seus estudos de Filosofia e Teologia aqui na Paraíba e deu continuidade a eles em Manila (Filipinas). Em “Isla de Samar”, centro do arquipélago foi diretor da Casa de Formação de sua Congregação Religiosa. Morou na Argentina entre os anos de 2001 a 2005, onde prestou serviço na Casa Sagrado Coração da Diocese de Laferrere, e acompanhou os alunos do Centro San José e aspirantes a vida religiosa.

É pós-graduado em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Católica da Argentina. Em 2006, foi transferido para o Paraguai, sendo nomeado pároco da Paróquia Nossa Senhora de Caacupé da cidade del este. Ele é membro do Instituto Literário e Cultural Hispânico, com sede em Westminster, Califórnia e do Movimento Poetas do Mundo.

Nosso padre poeta é autor dos livros: “Dolor del Tiempo e Esperanzas del dia”. Atualmente José Barbosa da Silva está em João Pessoa (PB) como novo pároco da Paróquia São Rafael no Castelo Branco.

Serviço:
Esperenzas del dia
Editora Mis Escritos
Argentina
Ano: 2007, 64p

Dolor del Tiempo – voces y poemas

Editora D Primeira Mano
Paraguai
Ano: 2006, 61p.

Contatos com autor: jobarbosa33@yahoo.com ou jbarbosa33@yahoo.com
http://vocesinpoemas.blogspot.com


Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação

quarta-feira, março 19, 2008

Espetáculos de Jesus


A Semana Santa é o período mais importante para os cristãos católicos de todo país e como sempre acontece várias montagens teatrais, recontando a vida, trevas, paixão, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, estão sendo encenadas.

Nesta quarta-feira (19), por exemplo, é a última apresentação do recital “Das Trevas a Luz” do Coral Universitário Gazzi e Sá da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A apresentação está prevista para acontecer às 20h00 na Igreja São Pedro Bento Gonçalves, localizada no centro histórico da Capital. O espetáculo, que a cada ano é mais requisitado, faz parte das comemorações da Paixão de Cristo.

“Das Trevas à Luz” é um espetáculo que reúne canto coral com teatro. A montagem surgiu da parceria dos professores de educação musical do Demús da UFPB, Eduardo Nóbrega (maestro titular), Eleonora Montenegro (diretora cênica), Antônio Carlos Coelho (coordenador musical) e João Arimatéia (regente assistente).

São ao todo 50 coralistas entre estudantes universitários, atores e atrizes convidadas. O recital apresenta enquetes cênicas retiradas das passagens da bíblia católica, como a cerimônia do lava pés, a oração feita por Jesus no Monte das Oliveiras, o beijo de Judas, o momento em Jesus com sede pede água para beber e dão vinagre e grito final de sua morte.

A montagem é encenada e cantada por Alberto Black (Jesus), Pollyanna Barros (Maria), Ricardo Gomes (Judas); Onivaldo Júnior e Michel Lucena (Narradores), Gilson Figueiredo (Caifás); Marconi Bezerra (João Batista); Luciana Rabelo (Verônica); Paula Regina (Madalena); Salete Lelis (Mãe de Tiago e João); Eduardo Nóbrega Filho (Pedro); Arturo Gouveia (Sacerdote); Ana Ferraz e Bárbara Carneiro (mulheres crentes); Rammon Felipe (Tiago); Eudes Farias e Thiago Souto (soldados). Além da participação do músico Yuri Ribeiro (teclado) e da professora de técnica, Ana Catarina Leão P. Coelho.

No programa do recital estão incluídas as canções: IV Tractus (José Lobo Mesquita), Requiem (Pe. José Maurício), Kyrie (Pe. José Maurício), Christus Factus Est (Igor Strawinsk), Domine, Tu Mihi Lavas Pedes (Tom K), In Monti Oliveti (Tom K), Judas Mercator Pessimus, (Tom K), Felle Potus (Tom K), Ó Vós que Passais (Tom K - com solo de Pollyanna Barros), Tenebrae Factae Sunt (Tom K - solista: Eduardo Nóbrega Filho), Sepulto Domino (Tom K), Stabat Mater (Tom K) e Aleluia (Tom K).

Maria Canta a Paixão

E também começa hoje, a partir das 19h00, no Parque Sólon de Lucena (Lagoa), centro de João Pessoa, a montagem teatral “Maria Canta a Paixão”. Está é a quarta edição da montagem que privilegia atores e produção local. A intenção dos administradores da Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope) foi selecionar dramaturgos, diretores de teatro e cenógrafos, através de editais de dramaturgia. O selecionado este ano foi o texto de autoria das arte-educadoras Luiza Barsi e Helena Madruga, diretor Antônio Deol e Duílio Cunha e dramaturgia de Diógenes Maciel.

O espetáculo sobre a morte e crucificação de Jesus Cristo prossegue até domingo (23) e contará com a mesma infra-estrutura que dispunha no local anterior (Praça do Bispo), com arquibancadas para o público. Serão ao todo oito sessões gratuitas divididas em uma apresentação nos dois primeiros dias do evento, às 19h00, e duas outras nos três dias subseqüentes, às 19h e 21h30.

A montagem tem uma hora de duração. A concepção cenografia é de autoria de Jorge Bweres e privilegia a manifestações populares, a exemplo dos desfiles de escolas de samba e procissões. As cenas acontecem em movimentos lineares sincronizados em uma passarela ao centro e as pessoas assistem das arquibancadas paralelas a esse palco.

As passagens cênicas serão contadas por 52 atores locais em uma área que mede aproximadamente 1.170 metros quadrados. O responsável pela direção musical é o maestro Eli-Eri Moura, que coordena a orquestra e o coro de formado por 20 vozes femininas, sendo oito solistas e ainda 10 instrumentistas.

“Maria Canta a Paixão” conta a história de Jesus Cristo na visão de Maria e tem o objetivo de integrar o sentido e importância da geradora do homem que revolucionou a história da humanidade. O diretor da montagem, o ator Antônio Deol, disse está na expectativa de que o espetáculo seja assistido por um número maior de expectadores.

Testamento do Rei Salomão no Casarão

As artes plásticas também não ficaram de fora da programação santa da semana. O Casarão 34 abriu hoje (19), às 19h00, a exposição do artista plástico alemão Dieter Ruckhaberle intitulada “ O Testamento do Rei Salomão (apókryphos). Na ocasião, o artista falará sobre as suas atuais e antigas obras, tais como: Cidade Latão, História das Mil e Uma Noites, Abisague e o Rei Davi.

Para quem não conhece ainda o Casarão 34 está localizado na Rua Visconde de Pelotas, 34 (Praça Dom Adauto), centro. As obras ficam expostas no local até o dia 10 de abril em horário comercial.


Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação.

sábado, março 15, 2008

A "Evolução" de Zé Filho

De fato é uma verdadeira “Evolução” o novo CD do guitarrista Zé Filho que será relançando nesta quarta-feira (26), a partir das 20h00, no Teatro Ariano Suassuna do Colégio Marista Pio X, localizado na Rua Monsenhor Walfredo Leal, em Tambiá. Os ingressos estão sendo vendidos na bilheteria do teatro ao preço de R$ 5,00 (estudante) e R$ 10,00 (inteira). O show contará com a participação dos músicos Groove, Primatas e Beto Tavares.

“Evolução” conta com dez músicas e foi produzido entre os anos de 2005 a agosto de 2007, gravado no estúdio de Sérgio Gallo, com projeto gráfico de Fábio Cavalcanti, fotografia de Mano de Carvalho, participação especial de Edu Ardanuy, Costinha e o Quinteto Uirapuru.

É claramente perceptível neste trabalho as influências de instrumentistas do jazz, a exemplo de John Coltrane, Jimmy Smith e Wes Montgomery. Há momentos em que a guitarra de Zé Filho se inspira nos fraseados dos instrumentos de sopro, às vezes se separa deles, caminha de forma independente, volta, soma, aparece "jazzy" e depois cheia de blues. Nessa linha, confira as faixas Bluesão (faixa 4) de autoria de Washington Espínola, outro excelente guitarrista paraibano que hoje reside em Genebra, na Suíça. Além de Brincando com Blues (faixa 6) e O Recomeço (faixa 10).

Na opinião do guitarrista e produtor musical, Sydnei Carvalho, o som de Zé Filho transcende aos rótulos fáceis e, segundo ele, o guitarrista não se acomoda a posição de músico da terra. Daqui ou não Zé Filho vem a cada trabalho solo se aperfeiçoando. Para não ser ingrato a quem sempre o acolheu o músico presta homenagem a sua banda de rock Área 51, que no final de década de 1990 fez enorme sucesso junto aos jovens da sociedade paraibana.

Outra homenagem que rende é ao bar Portal das Cores, de propriedade dos produtores de cultura Roberto Zaccara e Marconi Serpa, que funcionou na praia de Intermares, em Cabedelo. O portal para quem não conheceu era um lugar privilegiado a beira mar que trazia música de qualidade. Revelou grandes nomes e trouxe artistas que hoje são consagrados no cenário musical brasileiro, a exemplo de Zélia Ducan, Chico Sciense (falecido), Cássia Ellen (falecida), Ângela Ro Ro, 14 Bis e tantos outros que esqueço agora. Infelizmente o lugar teve que fechar suas portas devido ao fatídico acidente de dois filhinhos de papai que assassinaram um jovem no local.

A sonoridade do disco lembra o estilo de outros bons guitarristas: Dave Specter e Ronnie Earl. Quando comecei a ouvir o disco, a primeira impressão que tive foi a de que o trabalho seria na linha desses dois guitarristas, mas depois constatei que ali havia alma própria.

Há também no disco um ótimo "groove", do qual ele nomeou “Groove do Zé" (faixa 5). A música é cheia de malandragem e com espaços para os músicos da banda dar suas canjas. Bom mesmo é escutar essa música no show. Ali ele se diverte como se fosse um menino que está aprendendo a tocar.

Na seqüência desta “Evolução” aparece a faixa título do disco, uma boa música de ser ouvida. Nela o guitarrista é acompanhado do quinteto de cordas Uirapuru. Uma excelente música para ser escutada tomando uns goles de vinho ou Mescal (tequila texana vendida com um mandruvá curtido no fundo da garrafa) ou até mesmo de uma coca-cola, nesse caso para os abstêmios.

Os timbres da guitarra de Zé Filho estão agradáveis, estudados e demonstram bem o vigor do som de suas guitarras novas e antigas que ele as apresenta como se fossem suas filhas. As gravações de Evolução revelam amadurecimento artístico do guitarrista, apreço pelos detalhes, principalmente estéticos do show.

Enfim, Evolução é mais uma mostra dos bons guitarristas que a Paraíba possui e credencia Zé Filho como um grande instrumentista que pode lançar o seu trabalho mundo afora.

Mini-biografia do guitarrista

Zé Filho é natural de Recife (PE), mas reside em João Pessoa (PB) desde os oito anos de idade. Começou a estudar música no conservatório da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Estudou violão clássico durante quatro anos e em seguida passou a se dedicar ao popular. Aos 16 anos começou a tocar guitarra, instrumento em que sempre foi autodidata. Lançou o seu primeiro CD instrumental intitulado "Guitar Performance" em 1997, em seguida gravou "Q_OUT" (2001). Em 2002 saiu a segunda edição do Guitar Performance. Zé filho usa cordas e pedais NIG, amplificadores Meteoro e guitarras do luthier Carlinhos Bezalel.

Serviço:
Show: Zé Filho (guitarrista)
Lançamento do CD: Evolução (instrumental)
Quarta-feira (26)
Hora: 20h00
Local: Teatro Ariano Suassuna - Colégio Marista Pio X - Rua Monsenhor Walfredo Leal - Tambiá.
Ingressos: R$ 5,00 (estudante) e R$ 10,00 (inteira).
Participação especial: Groove, Primatas e Beto Tavares.

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação

segunda-feira, março 10, 2008

Homenagem à mulher


Elizabeth Teixeira
Vida e luta pelos direitos do homem do campo


No último sábado (8) comemorou-se o Dia Internacional da Mulher, dia que poderia ser todos os dias, pois ser mulher neste país, apesar dos avanços, ainda não é uma coisa muito fácil. Estatísticas sobre o comportamento, a saúde, o poder, o mercado de trabalho, a violência e tantas outras foram recorrentes na mídia brasileira nos últimos dias. Belas ou feias a imagem da mul
her foi publicizada de várias maneiras, com o intuito de reconhecê-la enquanto ser humano, coisa que Eva tratou de estragar nos últimos milênios. E já que é para homenagear trago uma história que uma mulher que não viveu no paraíso como Eva, nem teve grana para fazer lipoaspiração, colocar silicone e botox na boca, nem muito menos exerce um cargo de renomada importância intelectual ou jurídica. Essa mulher chama-se Elizabeth Teixeira, uma camponesa que lutou em defesa não apenas da mulher, mas o ser humano que busca incessantemente por justiça e dignidade. Leia a matéria:

Saí da redação do jornal de onze horas da manhã em João Pessoa com a incumbência de entrevistar uma mulher que hoje é símbolo nacional da luta pelo direito a vida da terra, a líder camponesa Elizabeth Altina Teixeira. O sol a pino de um verão que parece que nem tão cedo vai terminar sigo para Rua Genésio Gambarra, 160, em Cruz das Armas. A casa, antepenúltima da rua, uma senhora de 83 anos, completados em fevereiro deste ano, me atende com um largo sorriso no rosto e dá mais luz ao meu dia.

A casa é boa, pequena, mas aconchegante e extremamente agradável. Ao atravessar o portão uma cachorrinha saltitante duas redes armadas e mesinha com algumas cadeiras prontamente nos espera no terraço coberto da casa. Elizabeth Teixeira (1925) deu continuidade à luta do marido João Pedro, quando este foi assassinado por latifundiários, em 1962. Dona de casa, mãe de onze filhos, ela assumiu a presidência da Liga Camponesa da Paraíba, primeiro órgão de defesa dos agricultores no Estado, fundado por João Pedro em 1958.

Elizabeth Teixeira passou a percorrer a região, explicando aos camponeses seus direitos, enfrentando fazendeiros, denunciando as violências no campo. Organizou reuniões e coordenou atos públicos na cidade. Perseguida pela ditadura, viveu dezesseis anos na clandestinidade. Sua vida de resistência e coragem está perpetuada no filme Cabra Marcado para Morrer, de autoria do cineasta Eduardo Coutinho.

A camponesa esbanja uma lucidez de dar inveja a muitas pessoas. Ela nasceu na Fazenda Antas, município de Sapé. Filha mais velha de nove irmãos, sendo o pai, um médio proprietário, dono de mercearia e negociante de algodão. A mãe, descendente de uma família de latifundiários.

Antes de conhecer o marido João Pedro ela trabalhava nos serviços de casa e ajudava o pai na mercearia. Foi alfabetizada, mas teve que sair da escola no 2º ano primário, por proibição de seu pai. Desfrutava de uma vida relativamente confortável até o momento em que conheceu João Pedro Teixeira, trabalhador de uma pedreira próxima, negro e pobre, com quem fugiu para se casar, uma vez que seu pai se opunha ao relacionamento devido à condição social.

Fugida casou em Cruz do Espírito Santo e foi morar com o marido na fazenda Massangana, na Paraíba, onde o tio de João Pedro era gerente. Sem emprego mudou-se com João Pedro para Açú (PE) em 1945, quando começou a trabalhar numa pedreira e alfabetizá-lo. “Alugamos uma casa em Recife e João Pedro trabalhava na pedreira”, explicou. Neste período começa o contato dele com o movimento operário e funda o sindicato de sua categoria, o que lhe valeu perseguição dos patrões, não lhe dando emprego. É quando a família retorna a Sapé em 1954, para uma propriedade do pai de Elizabeth, e começam a viver do roçado e do trabalho de João Pedro. Nessa época, conta Elizabeth, as condições dos camponeses da região Nordeste se agravavam, levando-os à organização das Ligas Camponesas para lutarem contra a exploração dos latifundiários e pela melhoria das condições de vida no campo.

Como se não bastassem os conflitos com o pai de Elizabeth, devido à sua participação e do marido nas Ligas, o clima no campo começou a ficar mais pesado. “João Pedro foi assassinado em 2 de abril de 1962, a mando dos latifundiários da região. Dois policiais fizeram uma emboscada na estrada que liga café do vento. Ele tinha vindo a João Pessoa resolver alguns problemas. Quando fui ver o corpo dele peguei em sua mão de disse: João Pedro nunca tive uma resposta para te dar, mas vou assumir o seu lugar”, relembrou.

João Pedro Teixeira foi assinado por dois policiais, um cabo e um soldado da polícia, e o vaqueiro Aguinaldo Veloso Borges. O cabo da polícia chamava-se Francisco Pedro, apelido de Chiquinho, o soldado, Antonio Alexandre. “Uma senhora que morava perto do local disse que depois de ter levado os três tiros, João Pedro dizia, levantando a mão e ainda em pé: “Tentaram, tentaram até que tiraram a minha vida”. Sei que não reencontro mais a minha mulher e meus filhos, deu alguns gemidos e já estava no chão”. O primeiro que o encontrou foi o companheiro Antonio José Dantas, que estava na estrada com o prefeito de Santa Rita.

O crime repercutiu dentro e fora do país. Elizabeth, mesmo sem saber muita coisa, assumiu a direção da Liga de Sapé. Logo após seu segundo filho, Abraão Teixeira, é assinado com uma bala na cabeça. Tempos depois sua filha mais velha Marluce Teixeira suicida-se. “Ela tinha muito medo que eu morresse também, pois eu estava protestando contra a retirada de uma família de camponeses da terra”, contou.

Em 1964, o regime militar instaurado no país reprimiu violentamente e desestruturou o movimento. Pouco tempo depois é presa pelo exército brasileiro e passa cerca de 16 anos confinada nas dependências do Grupamento de Engenharia em João Pessoa. Depois que foi libertada buscou exílio na cidade de São Rafael, no Rio Grande do Norte, onde permaneceu com outra identidade (Marta Maria da Costa) até 1981, levando apenas um de seus filhos."Eu fugi com o meu filho, e os outros ficaram espalhados, com parentes. Eu vivia lavando roupa de ganho, no rio”, disse Elizabeth que nessa época pegou uma infecção, ficou muito doente, e foi hospitalizada. “O médico disse que eu tinha que parar de lavar roupa, e a situação ficou mais difícil ainda. Cheguei a passar fome. Um dia, eu estava sentada na calçada, chorando, então um motorista que viu a minha situação foi na venda e comprou uma feira com muita coisa, inclusive quatro latas de leite, e me entregou, num gesto de grande solidariedade”, disse.

Em São Rafael percebeu que as crianças viviam pelas ruas, sem, sem ensino nenhum. “Aí falei com as mães e propus ensinar às crianças em troca de algum dinheiro. Elas se reuniram, cada uma cedeu uma cadeira, outra emprestou a sala da sua casa, que foi transformada em sala de aula e passei a ensinar às crianças a ler, contar e escrever”, contou.

Após um longo processo de procura, em 1981, o cineasta Eduardo Coutinho, a encontrou. Abandonou a vida clandestina que levava e revelou seu verdadeiro nome e sua história às vizinhas e amigas do município de São Rafael. Depois que foi encontrada sua primeira iniciativa foi, com o apoio do cineasta, reencontrar os demais filhos, que moravam na Paraíba, no Recife, no Rio de Janeiro e em Cuba.

O Filme

O Eduardo Coutinho (foto ao lado) foi ao Nordeste fazer umas filmagens sobre o povo do interior, com os estudantes da UNE, e mudou o projeto de seu filme quando soube do assassinato de João Pedro. Eles todos foram ao ato público que realizamos depois do assassinato, e aí ficaram revoltados. “Eduardo me procurou e disse que deveria fazer um filme, que só foi rodado em 1964. Filmamos no Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco", relatou Elizabeth. As filmagens, de acordo com Elizabeth, na Galiléia, foram interrompidas pelo golpe de 1°de abril de 1964, sendo retomadas apenas dezessete anos depois.

O filme acabou sendo focado na vida de Elizabeth Teixeira para contar o assassinato de João Pedro. “Cabra marcado para morrer” (120 min) é de 1984 e tem no elenco Elizabeth Teixeira e família, João Virgínio da Silva e os habitantes de Galiléia (Pernambuco). Narração de Ferreira Gullar, Tite Lemos e Eduardo Coutinho.

Em uma das muitas cenas do filme Elizabeth diz: "(...) a luta que não pára. A mesma necessidade de 64 está plantada, ela não fugiu um milímetro, a mesma necessidade do operário, do homem do campo, a luta que não pode parar. Enquanto existir fome e salário de miséria o povo tem que lutar. Quem é que não luta? É preciso mudar o regime, enquanto tiver este regime, esta democracia, (...) democracia sem liberdade? Democracia com salário de miséria e de fome? Democracia com o filho do operário sem direito de estudar, sem ter condição de estudar?"

Hoje

Atualmente Elizabeth Teixeira reside em João Pessoa, com uma das filhas e duas de suas 23 netas e netos. Aos 83 anos, a dirigente camponesa permanece atenta à luta dos trabalhadores, mas pouco participa dos atos públicos em si. “Não sei como está hoje o sindicato rural, pois hoje não é mais Liga Camponesa, mas sindicato. Não sei como está. Minha velhice não deixa mais acompanhar o movimento”, lamentou.

Hoje ela é convidada para dar seu depoimento em congressos e conferências pelo país. "No dia 10 de maio, estive num acampamento de camponeses, no município de Itabaiana, chamado Acampamento Elizabeth Teixeira. Foi uma honra saber que os companheiros que lutam lembram de mim, viúva de João Pedro Teixeira. E é triste saber que depois de sua morte, a miséria, a fome, as injustiças e os crimes do latifúndio continuam acontecendo do mesmo jeitinho”, disse.

Em 1963, Elizabeth esteve em Cuba, acompanhada dos companheiros camponeses. Passamos 24 dias percorrendo todo aquele país. “Fui muito bem recebida por Fidel Castro. Ele me apresentou uma casa, dizendo que se eu quisesse voltar com meus filhos, teria toda a assistência. Mas, eu disse para Fidel que tinha um compromisso com a luta do Brasil, não só pelo assassinato do meu marido, mas de muitos outros companheiros, amigos que tombaram na luta. Quando veio o golpe, naquele momento difícil, eu pensava, às vezes, no convite de Fidel”, relatou.

Apesar das muitas marcas que vida lhe deixou impressas em seu rosto ela é perseverante na sua fala. É dotada de um espírito resistente à dor, e ainda se mantém doce e solidária. Por trás daquele corpo franzino estão escondidos os vultos de muitas lembranças difíceis de apagar. Ao contar e recontar sua vida a qualquer pessoa, informada ou desinformada, que chegue até ela sempre se emociona. Mas, procura, em meio ao baú de lembranças, motivar a nova geração para a continuidade de ação em prol da justiça social.

O trabalho de Elizabeth influenciou outros trabalhos, uma dessas influências é o Movimento das Mulheres do Brejo Paraibano, surgido na mesma área geográfica das Ligas. Há trabalhos que demonstram a persistência da memória das Ligas na região. Elizabeth tem sido referência simbólica de muitos movimentos sociais no país. Além do filme Cabra Marcado Para Morrer que deu enorme visibilidade a sua vida ela já foi homenageada pelo grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro, com a medalha Chico Mendes; Câmara Municipal de São Paulo, Igrejas Evangélicas da Suíça (1989); Assembléia Legislativa da Paraíba e outros reconhecimentos.

Elizabeth Teixeira é uma dessas mulheres em que a dor não mais a abate, onde o fatalismo não tem vez, a fama muito pouco a seduziu, mas apenas uma coisa a direcionou: a justiça e dignidade para o ser humano.

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação e arquivo

Socorro Lira participa de projeto cultural internacional


A cantora e compositora, Socorro Lira, que adotou visual carequinha, participa como artista brasileira convidada, em 2008, da “XIV Ponte... nas ondas!”, uma iniciativa da associação cultural Ponte... nas ondas!, da Galiza (Espanha), que promove a candidatura das tradições galego-portuguesas a Patrimônio Imaterial da Humanidade junto a Unesco.

O convite partiu da presidente da entidade, Santi Veloso, que tomou conhecimento do seu novo projeto musical, intitulado “Cores do Atlântico” (2006/2008), que traz versões de quinze cantigas d’amigo medievais galego-portuguesas, musicadas e interpretadas por ela e que contará com as participações de artistas convidadas do Brasil, da Galícia e de Portugal.

O Brasil estará representado como país de língua portuguesa da XIV edição de “Ponte...nas ondas”, no dia 6 de junho de 2008, uma jornada de eventos de comunicação, educação e arte que acontece anualmente envolvendo a imprensa da Galícia (e de toda Espanha), de Portugal, entre outros países como o Brasil; e pode ser acompanhada também pela internet. Outros artistas brasileiros, a exemplo de Chico César, já colaboraram com “Ponte... nas ondas!”.

O idioma como Ponte. A Galícia (ou Galiza), um dos Estados que, oficialmente, integram a Espanha é um povo que luta bravamente pela preservação de sua autonomia política e de suas tradições, inclusive mantendo a sua língua original – o galego – raiz do português moderno falado em Portugal e, por conseguinte, nos demais países lusófonos ex-colônias portuguesas na África e América.

O Brasil como um todo e, especialmente, a região nordeste reconhece a predominância de influências culturais da Península Ibérica da Idade Média, em sua cultura poética e musical, trazidas aqui por portugueses e galegos imigrantes que chegariam em terras hoje brasileiras, desde 1500. Outras informações podem ser obtidas no website: Para mais informações http://www.pontenasondas.org/


Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
adrianacrisanto@gmail.com
Fotos: Divulgação.

Novos Brasis da “Oi”

Como o objetivo de apoiar iniciativas que visam a inclusão digital e a transformação social, a empresa de telefonia móvel “Oi”, que entrou com força no mercado nordestino, abre nesta quinta-feira (13) inscrições para programa Novos Brasis, promovido pelo instituto de responsabilidade social Oi Futuro.

Os projetos inscritos devem ter como foco principal o desenvolvimento de tecnologias sociais que possam ser repassadas para outras organizações sociais. Serão observados critérios como inovação, criatividade, capacidade de apresentação de diagnóstico da comunidade e monitoramento do trabalho realizado.

O edital é aberto para organizações do terceiro setor sem fins lucrativos e devidamente legalizadas. Logo após a seleção dos projetos, os especialistas do Oi Futuro acompanharão a implantação de cada iniciativa, auxiliando na gestão e na avaliação do impacto das atividades.

No ano passado a Oi Futuro apoiou vários projetos culturais. Dentre eles estão: Olhar Circular (AL), Jogos Educativos para Informática – Jeinf (AM), Rede Ribeirinha de Comunicação (AM), Expresso Digital (CE), Fabriqueta de Software: um novo Brasil no Jequitinhonha (MG), iTEIA - Rede Digital de Cultura e Cidadania (PE), Portal Moda Brasil (RJ), Oficina Legal (PE), Da floresta para a cidade, da cidade para o mundo - Melhorando a comunicação da Hutukara Associaão Yanomami (RO).

As inscrições, assim como as regras de participação, estarão disponíveis no site www.oifuturo.org.br de 13 de março a 15 de abril. As organizações podem inscrever mais de um projeto, desde que atendam às exigências do regulamento.

Adriana Crisanto
Repórter
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Fotos: Divulgação

Espanha e Pernambuco unidos no Festival Câmbio Sonoro

A Espanha e Pernambuco parecem está em completa sintonia. Mais um evento unindo os dois países acontece em Recife (PE), no Teatro Santa Isabel nos dias 14, 15 e 16 de março de 2008. Trata-se do “Câmbio Sonoro - 1º Festival de Música Espanha-Pernambuco”, uma iniciativa de intercâmbio que visa promover a música como dimensão fundamental da vida contemporânea, dando apoio às iniciativas culturais da música local e internacional. Os ingressos estão sendo vendidos ao preço de R$ 5,00 (estudante) e R$ 10,00 (inteira) na bilheteria do teatro.
O Festival contará com três apresentações de grupos musicais da Espanha, antecedidas por pockets-shows de artistas pernambucanos. A renda do festival será revertida para o Espaço Recicriar, vinculado à Prefeitura do Recife, através do Instituto de Assistência Social e Cidadania (IASC). O dinheiro arrecadado será destinado à compra de cestas básicas, de medicamentos não encontrados em postos de saúde e para incremento a atividades esportivas.

O Câmbio Sonoro é uma ação pioneira idealizada pela Mosaico Producciones (Pernambuco) e Mirmidón Producciones (Espanha) em parceria com a Prefeitura do Recife e governos de Canárias, Catalunha e Galícia.

No primeiro do festival, sexta-feira (14), a partir das 21h00, se apresenta o grupo NARF da Galícia (Espanha). O Narf é um projeto do cantor, compositor e ator galego Frán Perez, que divide a sua atividade entre o teatro e o rock. Perez é um dos músicos mais conhecidos da Galícia. Além de ser um excepcional guitarrista, possui uma delicada voz e altas doses de originalidade e talento.

O pocket-show de abertura será com Zé Brow, conhecido por causa do seu trabalho com o Grupo Faces do Subúrbio. Uma das maiores influências do Zé é hip hop e a embolada, por causa da improvisação em cima de temas variados.

O segundo dia, sábado (15), também a partir das 21h00, no Teatro de Santa Isabel, se apresenta o grupo “Refree” da Catalunha (Espanha). Refree é um projeto de Raül Fernandez, jornalista musical, considerado um dos compositores mais criativos da Catalunha e também um dos personagens mais inquietos da cena independente. Seus trabalhos mostram uma grande riqueza na concepção do popular, além de um sólido compromisso estético e sentimental. Uma mistura de rock vanguardista, folclore Catalão e free jazz. Neste mesmo dia o pocket-show de abertura ficará a cargo de Zaldorf, que lançou um CD duplo e dois livros.

No último do festival, domingo (16), a partir das 19h00, o cantor José Antonio Ramos, das Ilhas Canárias (Espanha) sobe no palco do Teatro Santa Isabel para mostrar sua música aos brasileiros do nordeste. José Antônio é o responsável por introduzir o “timple” (instrumento de cordas de origem espanhola - num espectro acústico completamente inédito) na música espanhola. Suas incursões passam por vários gêneros, a exemplo do jazz, flamenco, celta, sinfônico, e tem causado admiração de todos aqueles que escutam seu trabalho e suas novas propostas musicais.

O show de abertura neste último dia ficará a cargo de Nenéu Liberalquino Trio, grupo formado em 1977, pelo regente, violonista, compositor e arranjador brasileiro Nenéu Liberalquino. O grupo de violões tem como um dos seus pilares estéticos a releitura instrumental do Cancioneiro Popular Brasileiro (MPB).

O trio tem em sua formação os musicistas: Neneu Liberalquino, Cláudio Moura e Guilherme Calzavara. Na apresentação, que promete ser bastante eclética, o grupo apresentará não somente canções da MPB dos mais variados ritmos (da valsa ao frevo, passando pelo baião e o choro), mas também composições do próprio Nenéu.

Serviço:
Festival Câmbio Sonoro
Data: 14, 15 e 16 de março.
Local: Teatro de Santa Isabel - Praça da Republica
Fone: 81. 3232.2939/ 8814-1984 / 8832-3200


Adriana Crisanto
Repórter
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sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Curtas-metragens paraibanos selecionados no Cine Pernambuco

Cena de "O Guardador" de Diego Benevides

Dois curtas-metragens digitais da Paraíba foram selecionados para participar da 12ª edição do Festival do Audiovisual de Pernambuco (Cine PE). O primeiro deles é o curta "Amanda e Monick" da estudante de jornalismo da Universidade Estadual de Campina Grande, de André da Costa Pinto. O vídeo apresenta a história real de Amanda Costa e Monick Macharrara, dois travestis da cidade de Barra de São Miguel, no Cariri Paraibano, que vivem em realidades totalmente opostas, mas tem suas vidas cruzadas a partir do momento que entram na sala de aula.

Amanda é professora de História para turmas de Ensino Médio e Fundamental, tem todo apoio da família, dos alunos e dos amigos quanto a sua condição sexual. Monick Macharrara cursa a 1ª série do Ensino Médio e é aluna de Amanda. Ganha a vida como garota de programa, foi totalmente rejeitada pela família devido a sua condição sexual e ainda tem que sofrer todos os maus tratos que a rua oferece. Vidas opostas que se cruzam quando ambos dobram a esquina e ficam cara a cara com o preconceito.

A locação aconteceu na cidade de Barra de São Miguel. O curta tem 15 minutos e mostra um pouco da vida do cotidiano dos dois travestis e como, através da educação, professora e aluna estão descobrindo uma possibilidade de quebra do preconceito.

A trilha sonora, composta especialmente para o curta, é baseada na história dos dois travestis e surgiu de uma parceria entre o diretor e a banda campinense "Repercussão". Amanda e Monick" é o segundo trabalho profissional de André da Costa Pinto, que recentemente recebeu do Curta Santos um prêmio especial do júri pela originalidade do documentário "A encomenda do Bicho Medonho", que também foi premiado no Jampa Vídeo 2007, além de ter participado de 12 dos maiores festivais de cinema do país e ter sido exibido nacionalmente pela TV Futura e pela TV Câmara.

O segundo selecionado para participar da competição do Cine-PE foi “O Guardador”, do diretor Diego Benevides. O documentário retrata o cotidiano de um funcionário do laboratório de anatomia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e sua relação com a morte e com os corpos humanos que chegam ao laboratório para ser estudado pelos alunos é um dos temas abordados no curta. O filme tem 8 minutos e já participou de várias competições de cinema.

O Cine-PE deste ano bateu recorde nas inscrições, com especial destaque para as categorias longas e curtas-metragens. Devido ao grande número de trabalhos pernambucanos inscritos (31 curtas em vídeo, 17 em 35 mm e 11 longas-metragens), a direção do festival avalia ampliar a programação do festival. Confirma a lista de filmes que participam da mostra competitiva:

1. Curtas-Metragens no formato DIGITAL
- Amanda e Monick (PB), Documentário, Direção: André da Costa Pinto
- Até Onde a Vista Alcança (PE), Documentário, Direção: Felipe Calheiros
- Coração de Tangerina (SP), Ficão, Direção: Juliana Psaros e Natasja Berzoini
- Fabulário Geral de um Delírio Curitibano (PR), Ficção, Direção: Juliana Sanson
- Ismar (RJ), Documentário, Direção: Gustavo Beck
- O Filme do Filme Roubado do Roubo da Loja de Filmes (RJ), Ficção, Direção: Marcelo Yuka, Julio Pecly e Paulo Silva
- O Guardador (PB), Documentário, Direção: Diego Benevides
- O Mascate (SP), Animação, Direção: Fernando Gutiérrez
- O Paradoxo da Espera do Ônibus (RJ), Animação, Direção: Christian Caselli
- Porcos Não Olham Para o Céu (RS), Ficção, Direção: Daniel Acosta
- Um Pra Um (SP), Ficção, Direção: Érico Rassi

2. Curtas-Metragens no formato de 35 mm

- Até o Sol Raiá (PE), Animação, Direção: Fernando Jorge e Leandro Amorim
- Café com Leite (SP), Ficção, Direção: Daniel Ribeiro
- Câmara Viajante (CE), Documentário, Direção: Joe Pimentel
- Cânone para 3 Mulheres (SP), Animação, Direção: Carlos Nogueira
- Comprometendo a Atuação (MT), Ficção, Direção: Bruno Bini
- Décimo Segundo (PE), Ficção, Direção: Leonardo Lacca
- Dossiê Rê Bordosa (RJ), Animação, Direção: César Cabral
- Dreznica (RJ), Documentário, Direção: Anna Azevedo
- Engano (RJ), Ficção, Direção: Cavi Borges
- O Livro Walachai (RJ), Documentário, Direção: Rejane Zilles
- Ocidente (PE), Documentário, Direção: Leonardo Sette
- Os Filmes Que Não Fiz (MG), Ficção, Direção: Gilberto Scarpa
- Pajerama (SP), Animação, Direção: Leonardo Cadaval
- Pugile (SP), Ficção, Direção: Danilo Solferini
- Saliva (SP), Ficção, Direção: Esmir Filho
- Satori Uso (PR), Ficção, Direção: Rodrigo Grota
- Um Ramo (SP), Ficção, Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra
- Um Ridículo em Amsterdã (SP), Ficção, Direção: Diego Gozze
- Uma (DF), Ficção, Direção: Nara Riella
- Trópicos das Cabras (SP), Ficção, Direção: Fernando Coimbra

A 12ª edição do CINE PE, Festival do Audiovisual de Pernambuco, acontece entre os dias 28 de abril e 04 de maio de 2008, no Teatro Guararapes, Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda. O festival é considerado um dos que possui o maior público de todo o Brasil – cada sessão tem em média 3,5 mil pessoas. Além das mostras competitivas, o evento promove atividades como oficinas técnicas, seminários, lançamentos de livros, exposição, mostra infantil de cinema brasileiro, mostra em bairros populares e mostra de cinema latino.

Adriana Crisanto
Repórter
adriana@jornalonorte.com.br
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Cursos de Cinema


E ainda falando sobre cinema o Serviço Social do Comércio (Sesc) de João Pessoa está oferecendo dois cursos de cinema, através de teleconferência, destinados a aficionados da arte cinematográfica, podendo ser profissionais em formação e atuantes, também, nas áreas das artes plásticas, história da arte, design e arquitetura, entre outras. Os cursos oferecidos são "Arte e tecnologia", ministrado pelo professor Marcelo Lins, e "Os principais movimentos estéticos do cinema", com o professor Francesco Trotta. As inscrições são gratuitas, com vagas limitadas, até o dia cinco de março, no setor de cultura da entidade comerciária. As teleconferências acontecerão uma vez por semana no turno da tarde, até o mês o final deste ano. Outras informações no setor de cinema e vídeo do SESC Centro João Pessoa, na Rua Desembargador Souto Maior, 281, ou pelo telefone 3208 3158.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Jornalismo e Literatura

A pesquisadora e antropóloga em comunicação Isabel Travancas no livro “Antropologia e comunicação” (Ed. Garamond, 2003) diz que o homem tem pressa, tem pouco tempo, quer receber o máximo de informações no menor tempo possível. É a corrida da sociedade moderna, da vida na cidade, da qual se referiu Georg Simmel (1979, p.14). É neste sentido que pensamos o jornal e o jornalista. Foi-se o tempo em que o texto no jornal se aproximava da literatura e conseqüentemente de um leitor menos apressado e mais dedicado.

De certo que muitas discussões já foram travadas entre jornalistas, intelectuais, pseudo-intelectuais, professores de letras, de jornalismo e literatura sobre o tema. Especialistas no assunto não faltam nas duas áreas. E para engrossar a literatura sobre Jornalismo x Literatura foram lançados recentemente duas novas publicações.

A primeira delas “Jornalistas Literários – Narrativas da vida real por novos autores brasileiros” (Summus editoral, 2007, R$ 53,90), uma coletânea de textos organizada pelo escritor Sérgio Vilas Boas. Pode-se dizer que o livro é e não é ao mesmo tempo didático. A obra consiste em uma coleção de 16 narrativas sobre pessoas reais e suas experiências.

Todos os textos foram produzidos pelos alunos de pós-graduação lato sensu (especialização) em Jornalismo Literário, turmas de São Paulo, Campinas, Brasília e Porto Alegre, entre o final de 2005 e o início de 2007. O curso, que é acessível apenas a quem dispõe de muita grana para fazê-lo, é oferecido pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) e pela Texto Vivo, que tem no comando os professores e jornalistas Celso Falaschi, Sergio Vilas Boas e Edvaldo Pereira Lima.

Os melhores textos estão estrategicamente colocados em primeiro lugar, como o de Isabel Vieira em que faz um perfil literário do jornalista Marcos Faerman, que foi vitimado por um ataque cardíaco fulminante, na véspera de carnaval de 1999.

Dos 16 textos destaco o de Lorena Tovil Schuchmann “Pasta e Passione”, em que a autora a partir da uma mensagem impressa no verso de uma embalagem de macarrão, parte em busca de seu objeto de investigação literária. Coesão textual, descrição, narração e diálogos são facilmente observados no texto. Objetividade narrativa, típica do jornalismo, criatividade argumentativa, relato dos fatos passo a passo são também outras características do texto da autora.

Paste e Passione conta a história de uma família de uruguaios que veio morar em Porto Alegre, em 1979, quando o caçula da família tinha nove anos de idade. O sotaque foi embora, mas a paixão pela cozinha permaneceu e foi passada de geração em geração até surgir a “Pastifício Italiano – Produzione di Paste Artigianali – Fábrica de Massas”.

Outra publicação da área intitula-se “Jornalismo e Literatura em Convergência” (Editora Ática, 2007, R$ 41,50). A obra é assumidamente didática e chama atenção pelo levantamento histórico-crítico feito por Marcelo Bulhões, professor de pós-graduação do Curso de Comunicação Social da Unesp de Bauru (SP).

O livro além de trazer teorizações sobre as categorias factualidade, ficcionalidade, justaposição dos gêneros narrativos, com destaque para reportagem e o romance, mostra a interferência e influência do naturalismo neste processo.

Para se fazer entender sua prática/teórica o autor buscou seus autores preferidos, a exemplo de João do Rio, Zuenir Ventura, Lima Barreto, Émile Zola, Truman Capote, Sylvio Floreal, João Antônio e Caco Barcellos.

Mas nessa área não tem livro melhor do que Pena de Aluguel (Companhia das Letras, 392 págs). A publicação não é atual, data de 2005, e nela a autora Cristiane Costa fez um belo trabalho ao escrever história da relação entre a literatura e o jornalismo no país.

O livro tenta responder como as duas áreas foram se encontrando com o desenvolvimento da imprensa no país e como a produção em uma área vem influenciando a outra. Afinal, será que o trabalho de um escritor como jornalista pode influenciar a forma como este escreve literatura? Será que o escritor, trabalhando na imprensa, faz melhorar a qualidade dos jornais?

As perguntas servem apenas de mote a uma deliciosa viagem no tempo, onde encontramos desde personalidades como Machado de Assis, José de Alencar, Monteiro Lobato, até nomes recentes da literatura brasileira a exemplo de Bernardo Carvalho, Cíntia Moscovich, Luiz Ruffato, Marçal Aquino e outros.

Pena de Aluguel retoma uma enquete similar feita por João do Rio no início do século, quando os jornais davam um tratamento à literatura bem diferente ao dado hoje. Na época, escritores como Machado de Assis e José de Alencar possuíam um espaço para publicação de livros através do folhetim. Além disso, críticos como José Veríssimo dividiam suas análises na primeira página dos jornais com o próprio editor.

Neste período não havia preocupações como o tempo gasto nas atividades do jornal, com a utilização da linguagem jornalística, com a objetividade, muito menos com lead, sublead, abertura, etc. A autora avança nas observações e questiona: “Afinal, houve alguma mudança no modo como o lado escritor se relaciona com o lado jornalista?” As respostas são variadas e o livro traz alguns comentários a respeito do levantamento, mostrando não somente uma evolução no modo como a questão é tratada pelos artistas.

Outro grande mérito do livro é o modo como a autora fala sobre a evolução da mídia impressa brasileira, sua crise atual e multiplicação de blogs que vem, de acordo com Cristina Costa, provocando mudanças significativas nos principais veículos de comunicação do país.

Não vivi na época do jornalismo literário de Machado de Assis, apenas li seus livros clássicos para o vestibular, algumas reportagens e muitos comentários a respeito do escritor. Diante desta realidade penso que enquanto o jornalismo literário está em extinção nos cadernos culturais brasileiros, a crônica ganhou espaço e revelou outros nomes.

A leitura dos livros “Pena de Aluguel”, “Jornalistas Literários” e “Jornalismo e Literatura em Convergência” servem, portanto, de estímulo para que cada vez mais as editoras possam tratar de modo mais adequado os textos de grandes autores que foram veiculados nos jornais e colocar seus olhos na área de comunicação. O cruzamento entre jornalismo e literatura é ainda uma tribo a ser descoberta e explorada. Uma terra com tesouros de palavras.


Serviço:
Jornalistas Literários - Narrativas da vida real por novos autores brasileiros

Autor: Sérgio Vilas Boas (org.)

Summus editorial
São Paulo

Ano: 2007
315 páginas
Preço: R$ 53,90

Jornalismo e Literatura em Convergência
Autor: Marcelo Bulhões
Editora Ática
São Paulo
Ano: 2007
211 páginas.
Preço: R$ 41,50


Adriana Crisanto
Repórter
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sexta-feira, fevereiro 22, 2008

NOEL o filme

Demorou a chegar nas salas de cinema de João Pessoa, mas finalmente foi exibido o filme "Noel - Poeta da Vila", do diretor Ricardo Van Steen. O filme conta a história do músico, compositor de sambas e por que não dizer mulherengo Noel Rosa e acima de tudo um gênio da música brasileira. Apesar das muitas críticas com relação ao elenco feitas pela imprensa especializada do sul, sudeste e nordeste a atuação do ator Rafael Raposo, que interpretou Noel Rosa no filme salvou muitas partes do longa-metragem.

Noel Rosa foi uma figura especialíssima, seu andar largado, chapéu panamá, terno branco, gravata, sapato de sambista, o queixo de quem nasceu com uma trombose e total entrega ao universo da música. Ele foi diplomado como boêmio, morreu tuberculoso, mas também suou a camisa para compor e deixar como legado 259 composições, escritas num período de cinco anos.


Abandonou a faculdade de Medicina para se dedicar à música e morreu aos 27 anos. Apesar de reverenciar o compositor e ter mergulhado em sua vida para viver o personagem, Rafael contou em entrevista para imprensa do sul que a boemia nunca foi o seu forte. “Tenho alguma semelhança física com Noel, mas sou bem diferente dele. Não levo uma vida boêmia e nem sou mulherengo. Porém, aprendi com ele, através do filme, a viver cada dia como sendo único”, diz o ator de ‘Noel Rosa — Poeta da Vila’.

O ponto alto da trama é a relação extraconjugal entre ele, que era casado, com a dançarina de cabaré Ceci, papel de Camila Pitanga, que recentemente viveu a prostituta Bebel na novela “Paraíso Tropical’’ (Globo). A personagem Ceci (assim como Bebel) tinha uma profissão que, na sua época, era rejeitada.

Mais do que uma narrativa histórica sobre o músico excepcional que foi Noel, o enredo do filme é um manifesto contra a discriminação e o preconceito enfrentados pelos negros ao longo dos séculos. Os índios nessa época eram vistos como apáticos ou nem eram vistos. Os negros, como escravos indolentes, marginais ou ladrões de carteira. Foi nesse contexto social que sobreviveu Noel, Cartola, Aracy de Almeida e tantos outros sambistas brasileiros que ajudaram a construir as bases da música popular.


A música do filme é um aspecto a parte. E é duro assistir e ouvir todas aquelas músicas com riqueza melódica e poética e se deparar em seguida na calcadinha da praia de Manaíra com carrinhos de música vendendo Cd´s com a música que tem no refrão coisas do tipo: “beber, cair e levar”. Não que Noel não tenha se embrigado, várias vezes são vistas cenas da boemia no filme, mas a embriaguez parecia fazia parte do processo criador e da criatura levado aos extremos com muito um humor.


Hoje o samba é moda, veio e ficou. Está em toda parte do país e tomou novos ares na cidade do Rio de Janeiro, onde dizem alguns historiadores ter nascido. Noel não era baiano, não nasceu no recôncavo, era carioca da gema. Nasceu de um parto difícil em que o uso do fórceps pelo médico causou-lhe um afundamento da mandíbula que o marcou por toda a vida.


Apesar de algumas criticas o filme ganhou os prêmios de melhor direção de arte, melhor edição de som e o Prêmio Especial "Orgulho de Ser Brasileiro", no Festival de Cinema Brasileiro de Miami. Ganhou o prêmio de Melhor Filme - Júri Popular, na Mostra de Tiradentes.

Este foi o filme de estréia do diretor Ricardo van Steen. As filmagens de Noel - Poeta da Vila ocorreram no final de 2004 e o filme foi exibido na mostra Première Brasil, no Festival do Rio 2006.


Adriana Crisanto
Repórter
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Raizes firmes

“Enraizados” é o nome do curta-metragem que será exibido na próxima quarta-feira (27) no Teatro Santa Roza em João Pessoa a partir das 20h05. O curta conta a história de Minervino e Salustiano, dois irmãos que envelheceram no sertão nordestino, não optando pelo êxodo como boa parte dos nordestinos, mostra a sobrevivência ao dia-a-dia de muitas dificuldades, solidão, indiferenças e alimentando-se de esperança de colher algo bom daquela situação.

A direção e o roteiro são de Niu Batista, a produção de Roseli Ferreira, fotografia de João Carlos Beltrão, som direto de Lúcio César, maquiagem de Williams Muniz, edição: Diego benevides, Lúcio César e Marco di Aurélio, com trilha sonora original de Roberto Araújo e Marcelinho Vasconcelos.

No elenco está o cordelista Marco Di Aurélio e o cantor e compositor Chico Viola. O curta tem duração de 12 minutos. Teve como cenário a cidade de Cabaceiras, município localizado cerca de 183 quilômetros da Capital, João Pessoa. Além do cenário natural o diretor optou com escolher duas figuras conhecidas do meio cultural do Estado, o cordelista Marco Di Aurélio e Chico Viola que foge a qualquer padrão estético de beleza cinematográfica, mas que são profundos conhecedores da arte popular, verdadeiros quixotes da cultura.

De acordo com o diretor Niu Batista, a idéia para o curta surgiu de maneira espontânea. Os atores foram consultados e logo aceitaram a proposta, o resto foi “fácil de fazer”, o talento e paciência de Niu uniu-se ao cenário natural do cariri paraibano. A locação do filme foi num casebre de taipa nas imediações do Lajedo de Pai Mateus, localizado entre os municípios de Cabaceiras e Boa Vista.

Serviço:
Enraizados (curta-metragem)
Direção: Niu Batista
Quarta-feira (27)
Hora: 20h50
Local: Teatro Santa Roza - Centro Histórico
Cabaceiras o cenário para locação do filme>>


Adriana Crisanto

Repórter
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quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Antarianos completam 20 anos

Agência de Comunicação Antares completa 20 anos de atuação no mercado publicitário paraibano e empresário diz que a propaganda sozinha não faz milagre e que é preciso fazer comunicação



Uma das mais completas agências de comunicação de João Pessoa completou este mês 20 anos de atividade no mercado publicitário paraibano. A agência é especializada na prestação de serviços de comunicação e iniciou suas atividades em fevereiro de 1988. Desde então, vem acumulando, além de bons relacionamentos, um amplo conhecimento do mercado, diversos prêmios de criatividade e qualidade, e muitos casos de sucesso.

A Antares hoje atua diretamente nos mercados da Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte; além de desenvolver ações de comunicação em outros estados. Para isso, a agência conta com o suporte de uma grande rede nacional de parceiros e prestadores de serviços especializados.
Comandada pelo publicitário Expedito de Carvalho Júnior a Antares integra a Associação Brasileira de Agências de Propaganda (ABAP); é certificada pelo Conselho Executivo de Normas Padrão da Atividade Publicitária (CENP); e é uma das empresas pioneiras do mercado nordestino no Instituto ETHOS, uma associação nacional de empresas que atuam com base em princípios de responsabilidade social; além de ser também uma empresa amiga da criança certificada pela Fundação Abrinq.
Para falar sobre os 20 anos de atividade no mercado entrevistei o publicitário em sua agência, localizada numa bela casa, inteiramente reformada, na avenida Princesa Isabel, no bairro de Tambiá. Nesta entrevista Expedito Júnior faz uma análise do mercado, conta como era o ramo de atividade na época em que começou e fala com total desenvoltura e conhecimento de causa sobre a publicidade brasileira. Confira:

Como se configura o mercado publicitário paraibano?
Ao longo desses últimos cinco anos o mercado vem cada vez mais se profissionalizando. O que eu sinto é que os médios e os pequenos clientes não estão conseguindo acompanhar. Hoje em dia o braço da propaganda, como instrumento de comunicação, exerça o papel de maior importância, cada vez mais o senso da verba de comunicação vai se dividindo em outras frentes. Exemplo: assessoria de imprensa, área promocional, designer, Relações Públicas, Marketing. O que percebo é que em razão desse contexto o publicitário começou a cumprir um papel, para suprir a necessidade de mercado, muito mais de consultor de marketing do que propriamente de publicidade. Se agência trabalhasse só com a propaganda iríamos discutir aqui seu anúncio apenas. Quando na verdade você tem que enxergar o que ele realmente necessita. A propaganda sozinha não faz milagre. É preciso fazer comunicação.

O que foi mais difícil nestes 20 anos de Antares?
(Silêncio). Manter uma empresa pequena dentro de um mercado sem tanta base de estrutura profissional é complicado. Porque além do contexto nacional de regulamentação da profissão, das regras de como atuar neste mercado, nós estamos ainda dentro de um contexto totalmente carente de posicionamentos éticos. Observamos empresários com contas conflitantes, atendendo do mesmo jeito, como se fosse a coisa mais normal do mundo, quando, na verdade, não é. A grande dificuldade, além dos problemas de qualquer empresa, foi à falta de profissionalismo que graças a Deus a gente vem melhorando a cada ano.

Você concorda com a tese de que a criatividade nasce do ócio?
Na verdade as pessoas confundem. Isso é uma situação do processo criativo. Quando o diretor de criação tem contato com o que o cliente deseja primeiramente ele vai analsiar, pensar, estudar cada situação. Muitas vezes não consegue obter êxito na mesma hora, no mesmo dia, na mesma semana. Embora, os prazos agora sejam cada vez mais curtos. A pessoa não desliga. Vai para casa pensando e de repente, por exemplo, ele está tomando banho e tem um insight criativo, uma grande idéia. Daí as pessoas acham que o processo criativo só acontece dessa forma. Quando na verdade não é isso. Há uma inversão de como se dá o processo criativo. Um insight criativo pode se dar em qualquer lugar.

O envolvimento de Marcos Valério e Duda Mendonça no escândalo do mensalão abalou a credibilidade dos publicitários brasileiros?
Não acredito. Porque hoje é um segmento muito sólido. Existem muitas pessoas sérias fazendo publicidade. Isso foi um caso isolado. A gente não pode esquecer que Marcos Valério não é um cara de formação publicitária. É um lobista que armava essas pontes. A situação de Duda Mendonça é um pouco mais delicada, mas eu atribuo muito ao envolvimento, do qual você precisa ter muito cuidado, de ordem operacional com o cliente que ele tinha naquele determinado momento. O sentimento ético se dá no momento da escolha. A publicidade brasileira não pode se resumir só naquele fato. Tudo que ele construiu não pode ser jogado no lixo. O episódio também foi importante para que fosse gerado uma grande discussão e para se repensar em como estavam sendo trabalhadas as verbas governamentais.

A maior verba do mercado publicitário paraibano continua sendo da área governamental?
Infelizmente sim. Mas, eu atribuo muito ao fato de que as grandes verbas privadas passaram a ser trabalhadas em “houses” ou saíram daqui e procuraram agências de fora. Na área de varejo temos vários exemplos.

O ano passado foi um ano bom para a publicidade e propaganda no Brasil. Quais as previsões para 2008?
Eu estou muito otimista. Estava na contabilidade ainda pouco fazendo uma previsão e detectei aproximadamente um crescimento de faturamento na ordem de 20% até junho deste ano. O segundo semestre ainda é um ano de interrogação. Esse ano é de eleição, mas por ordem estratégica sempre deixei a verba do marketing político à parte deste processo. Para que a gente possa enxergar o ano dentro do cenário privado.

A publicidade na internet ainda é muito cara?
Aqui na nossa região ainda é um negócio muito novo, mas no sul e sudeste isso já é uma realidade. Estava vendo ainda pouco que 5% dos usuários de internet estão acessando internet por celular. Precisamos ficar atentos a este segmento. O formato é outro. E ainda vem muita coisa por ai. Por isso também acredito que o publicitário tem que ficar na esfera do marketing. Se ele ficar olhando apenas para a propaganda em si ele não vai conseguir entender o contexto do que vem acontecendo.

O que você diria para os estudantes de comunicação que estão querendo ingressar no mundo publicitário?
O primeiro passo é gosta de gente. Está junto das pessoas. No sentido não só do contato, mas de estar interessado no que acontece em volta de você. Porque cada vez mais a gente vai precisar entender quem é aquele público que a gente deseja alcançar. Eu acho isso condição “sin ne qua non”. Se você não gostar de pessoas não vai dar certo. Porque hoje a luta no mercado é por atenção. É um concurso. Somos impactados com várias mensagens ao longo do dia desde quando acordamos. A eficácia e a eficiência da propaganda vai se dá dentro do entendimento dos públicos que se pretende alcançar. E gostar de gente é gostar de cultura, se interessar pelas coisas da cidade. Tem que ter uma mente aberta para tudo que está acontecendo e não ter preconceito a nenhum tipo de mídia.

Adriana Crisanto
Repórter
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adriana@jornalonorte.com.br
Fotos: Helder Pinto